28 de nov. de 2008

PECADO E PERDÃO

Caríssimos irmãos, carentes de Luz.
Hoje posso ver com alegria o quão é importante a existencia de todos voces que dissimulam a verdade; que proclamam a hipocrisia; que como Judas amam a falsidade, traem e conspiram contra o próprio Ser. Sim, porque ninguem consegue ser tão mal sem antes prejudicar a si mesmo.
Em suas maledicencias, nos falsos testemunhos, na aleivosia, na discriminação, nas injurias e na difamação: Hereges de má intenção. Voces conseguem ser a alegria do inferno e o deleite do próprio demônio, enquanto promovem e alimentam a tristeza de Deus.
Que bom que voces existem meus irmãos!
O que seria da Luz se não houvesse as trevas? O que seria da culpa se não existisse o perdão?
O que seria, meus caros, do próprio Cristo, da redenção dos pecados se não fosse os hipócritas, os medíocres fanáticos, a humanidade presente tomando parte em sua Crucificação?
Queridos irmãos, ainda bem que vossos corpos serão consumidos no nada, pois sois todos mortais.
Deem graças, pois, que só vossas almas é que são eternas e á estas ainda resta um periodo de expiação para obter o Perdão Divino.
Que assim seja!

13 de ago. de 2008

SÉRIE: Qualquer semelhança...

Parte l
Tudo que vejo é vulto...
- Tudo que vejo é vulto e o que sinto é o calor das mãos de minha mãe.
- A percepção se confunde com a energia que posso sentir. O toque, os gestos e o silencio do coração são mais altos que todos os outros acordes. Por hora eu sinto que sou objeto de uma paixão. Sou a lógica do amor determinada pelo ser humano. Sou agora um humano que tem cara e que tem coração.
- O colo me conforta com o calor do abraço que posso sentir. De repente parece que estou de volta ao ventre livre de onde eu nasci.
- Alguma coisa me faz reter músculos e nervos; ruídos altos de coisas que nem percebo e, ás vezes, um grande e demorado clarão.
- Logo vou começar a perceber tudo e decifrar as letras que eu nunca pensei escrever.
- ... Por hora eu posso dizer que agora sou parte de um meio, já sou algo que é parte do recheio; sou um grão que nasceu e terá o seu tempo enquanto, no tempo, o Amor de Deus permanecerá...!

O caminho é bastante longo, de voltas quase imprevisíveis, retas confusas que parecem não ter final. As barreiras não são tão intransponíveis, porem os níveis é que diferem na hora da escalada. Homens e mentes se confundem entre objetivos e ideais. Paralelamente corre o nada, para o nada, princípio da vida onde tudo começou. A razão está perdida meio a tantas emoções; sensações que despertam um falso momento, sentimentos incontidos numa imagem que não consegue refletir o que é real. E o homem se perde em labirintos que são alargados pela sua cruel ilusão. A saudade é uma moeda trocada pela esperança que não saiu da caixa de Pandora e o valor de outrora já não faz parte nas bolsas de cotação. É ínfimo e medíocre o esforço para se alcançar a verdade, pois a liberdade se tornou refém da hipocrisia e da falta de afetividade e compreensão.
Os ideais são fantasias, são máscaras carnavalescas, dissimuladas em ideologias grotescas que só servem para alienar as mentes fragilizadas, pobres mentes dotadas de débeis conceitos, de preconceitos e de discriminação.
E o corpo é a peça que designa a vontade; é a maldade e o excesso de um senso comum. A boca é usada para a pronuncia descabida, desordenada, projetando a palavra errada, erradicando a premissa da consagração. Gestos nem sempre inteligíveis, formas e textos imprevisíveis, sem deixar qualquer chance de interpretação.
E sofre, padece, vivendo admoestado pela “santa ignorância” da auto destruição. Fortes e pusilânimes corpos que são despejados, despojados do tudo que nunca os fartou. Trazem nas marcas todo o resultado de uma soma mal combinada, soluções enganadas, erradas em cálculos que não deixa certeza, que adormece na mesa, dentro de um tubo de ensaio qualquer. É a proveta o seu novo abrigo e o castigo renasce de um ato abolido num tempo que não vai voltar.
Pobres humanos desamparados, marginalizados pela própria razão. Não sabem por onde caminha o seu próprio destino, não andam sozinhos e vivem na escuridão achando que é longe a visão que carrega pois não querem aceitar que é cega a justiça que escorrega espremida entre os dedos, conservando a marca do medo no “M“ da palma da mão.
A Razão e a idéia constituem uma suposta panacéia a seres autônomos e ineficazes.
Não há sombras de dúvidas, as dúvidas é que são as sombras daquilo que não sabemos ou não podemos explicar.
... E o Amor de Deus permanecerá!
- No vento que sopra e na chuva que cai; no claro da luz que o Sol contemplou; na força da vida que brota e se vai e na madrugada perdida que ninguém despertou...
Por quanto ainda seremos humanos e, quantos anos ainda faltam pra si? Afinal o que seremos ou pra onde nós vamos, numa vida que passa e não tem pra onde ir?
A direção é incerta? Como foi traçada essa reta e qual a intenção que nos leva ao final?
E quem chega onde pensa que chega, chega cheio de idéias ou chega de pára quedas e cai sob sete palmos de chão?
Até onde somos nós mesmos e temos consciência disso e até onde eu posso pensar que sou aquilo que sempre quis? E como posso agir como eu mesmo se a corrupção ao meu corpo vem de berço, duma enfermaria em um canto qualquer, pois a mente que não se corrompe sofre no seu dia a dia o assédio da inquisição.
Os desafios são cada vez mais constantes. O que foi uma aventura antes passa a ser agora uma conduta de pura reflexão, de constatação dos enganos e da absolvição de nossa própria alma.
As palavras se repetem mas estão cheias de significados diferentes e, quando representadas, são outras as suas intenções.
Algumas pessoas se perdem meio a valores que criam e levados pela especulação de tantos outros valores de duvidosas e espúrias cotações.
As opiniões já não são assumidas ou livremente determinadas, misturam-se entre sugestões mal formuladas e acovardadas, dissimuladas pela hipocrisia e pela má intenção.
Entretanto...
Acordei com alegria ao saber que teria em meus braços o neto que era esperado e que foi cuidadosamente esperado e planejado por minha filha que fizera essa opção.
Na enfermaria de um Hospital público de ambiente sombrio e desorganizado encontrei a minúscula vida sendo embalada pela mãe que sorria com orgulho e satisfação.
Antes do Pai, o avô. Sorri e tomei-o em meus braços e num beijo terno nos lábios felicitei a minha radiante e ainda pusilânime filha que agora se tornara mamãe.
Meu genro a tudo observava e não conseguia conter a alegria nos olhos que brilhava mas, no momento ainda não se achava com coragem de pegar aquela figurinha frágil que eu descobria meio as mantas e roupinhas cuidadosamente arrumadas e levemente perfumadas. Ofereci-lhe o filho encorajando-o e orientando-o de acordo com a minha experiência de pai, enfermeiro(Téc.) e, por fim, avô “babão”.
A emoção do momento, no entanto, não conseguia sobrepor-se a razão e, assim, aluguei os ouvidos da filha e do genro com medidas imediatas de minha preocupação. Fiz diversas recomendações e chamei a atenção para procedimentos e cuidados que a partir do momento seriam determinantes para evitar complicações e proteger uma vida que se iniciara e que aos pouco se desenvolvia na palma de nossas mãos.
... Por hora, eu continuo a dizer que tudo que vejo é vulto e, que o Amor de Deus sempre permanecerá!
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Parte II

Um dia a mais

E mais um dia começa e junto a esse começo o desespero de quem não suporta mais esperar. O corpo já não quer a inquietação da mente e quisera ser demente para justificar um mal que já não mais suporta e, quisera sair pela porta, sumir para não voltar mais.
Não, não seria essa louca vontade insana que se renova de semana em semana e dia após dia sem dar um descanso sequer. Não seria essa condição louca, que sufoca e cala na boca um grito difícil de se conter.
E a palavra traduz mas não consegue expressar a ignorância que vive em concomitância com a própria falta de explicação. A verdade já não interessa porque a pressa, agora, é de resultados. Resultados que podem ser imprecisos, que não importa se venham com avisos ou qualquer outra forma de manifestação. O presságio há muito deixou de ser importante. O sentimento não é mais o de antes e o mau e o bom são matérias que geram uma vaga e invulgar discussão.
São assim os dias de um desempregado, de alguém que é útil mas não tem uma ocupação, a não ser no trabalho da mente que tenta não sucumbir ao tédio; que tenta fugir do amargo remédio que vicia, da droga que alicia, da ansiedade no dia que esquenta e esfria mas não muda a idéia e nem mesmo a razão.
Como um animal acuado, vive preso e desamparado por uma sociedade que não quer se envolver. É mais uma vitima de sua comunidade, das famílias e da sociedade, que a tudo assiste e insiste em discriminar. Julgam alguns que não há exclusão mas não dão atenção aos gestos tão mudos quanto estáticos e, com atitudes e pensamentos práticos, escondem em si a hipocrisia e disseminam a falsidade, com uma verdade que inexiste mas que atende ás suas terríveis necessidades, de legar para a eternidade a falta de compromisso moral e de uma justa razão.
A quem interessa, portanto, essa lamentável condição? Quem serão os algozes de um trabalhador incansável que por uma idade avançada e inevitável não consegue um lugar ou uma oportunidade para provar a sua capacidade, a sua utilidade e aptidão? Que inteligência impera nesse meio confuso cujo abuso está estampado na cara, na figura que se declara e se completa numa vil obstinação? Que distancia separa o discurso da ignorância e com que ganância esperam alcançar o topo dessa montanha infinita de proporções tão esquisitas quanto a vontade de não ser a imagem uma simples visagem que assusta mas não afugenta, que cria e não se contenta em ser uma idéia a mais, uma espera de paz ou, serenamente, uma simples imaginação.

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18 de jul. de 2008

Segurança Pública & Saude Publica - O que eles têm em comum?

Todos os dias ficamos sabendo de mais uma morte provocada pela incompetência e a má formação de policiais. Hoje em dia, como se não bastasse tanto, vemos nascer tantas outras formas de violência que chega a ser difícil ter que compará-las. Aliás, com a violência não há qualquer comparação. Além do mais, os elementos que promovem e dão sustento a violência é que não há mesmo como os comparar. São únicos e ainda bem. Não são pares da imoralidade, são o sacrifício da forma mais que naturalmente correta que ainda falta na consciência do homem.
As estatísticas apontam para a falta de qualificação de mão-de-obra no escasso mercado de trabalho, enquanto mostram que a qualidade na formação dos profissionais está seriamente comprometida principalmente nos órgãos que deveriam assegurar uma melhor qualidade de vida para o cidadão. Agora notem bem quanta ironia, notem do quanto é capaz, um sistema, para atingir as suas expectativas por um simples conceito de QUALIDADE E QUALIFICAÇÃO.
Sistema e conceitos que aqui me refiro, responsáveis por essas mudanças trágicas e quase irreversíveis no homem, são aquelas partes que há muito vêem o seu semelhante com um meio, uma via para o pesado tráfico de suas influências que de nada serve ao mundo que deve ser pensado de uma forma mais natural. São elementos que nascem, acontecem e se propagam meio a outros que com características e diferentes essências, acabam por se contraporem apesar da tão confundível e inevitável junção, a interminável mistura entre o trigo e o joio, o trabalho e o pão, o arbítrio e a opção.
As acusações e denuncias são quase sempre de forma ignorante, tedenciosa e precipitada e nunca trazem de concreto uma séria e descomprometida discussão. As pessoas são compelidas cada vez mais a pensar com a cabeça do Estado e as razões vão se perdendo de geração em geração. Há uma controversa harmonia entre as pessoas que já não se sustentam e se confundem em seus princípios, conceitos ou determinações. Na escola ainda falta a disciplina do auto conhecimento e as matérias ainda passadas, algumas, de forma um tanto ridícula e arbitrária, mostram o quanto se respira nesse imenso espaço cultural, a sofrível e lamentável cultura da alienação, da desinformação e da má formação.
O homem troca, vende, negocia o seu estado de consciência, o seu livre arbítrio, a sua supremacia, pela subordinada e irrepreensível condição. Condiciona-se a tudo, acostuma-se com tudo, conforma-se com tudo e se acomoda, se incomodando por vezes com aqueles que não querem se acomodar...
E, portanto, diz-se que a polícia atira antes para depois identificar a sua vítima, o que faz de forma contrária o sistema público de saúde que vagarosa e inacreditavelmente identifica suas vítimas ainda nos corredores, nas filas, nos guichés e bancos de uma suja e desprezível recepção de hospitais e clínicas; preenchendo fichas, coletando dados de uma maneira tão formal quanto ignorante, absorta e totalmente alheia ao sofrimento e a fragilidade humana. Agentes despreparados e sem conhecimento algum da área em que atuam, procuram preencher extensos questionários inoportunos e inadequados para o momento de pessoas visivelmente moribundas que nem chegam sequer a ser atendidas no consultório médico, morrendo, por vezes, jogadas pelo chão.
Qual a formação que quero prá mim? Qual atendimento e com que finalidade e intenção eu devo ser atendido enquanto um ser humano, independente de ser reconhecido como um cidadão?

“…uma motorista com um filho menor a bordo, estaciona o seu carro de maneira ordeira e regular numa berma para que a viatura policial possa passar e dar prosseguimento a uma caçada a meliantes que trafegam em alta velocidade pela via… a policia pára e metralha o carro da motorista ingenua, temerosa e bem-intencionada que vê o filho a seu lado ser morto pelos policiais bandidos, destemidos, mal-intencionados e despreparados que espalham terror e fazem da criança mais uma de suas inúmeras vitimas mortais”. E os meliantes continuam impunes e em fuga, a polícia mata inocentes e esta cena ainda muitas vezes se repetiria.

“ um pai chega ao hospital com a filha que vai dar a luz. Desesperado vai ao pronto-socorro explica a situação da filha que se contorce num extenso banco de madeira que não tem condições nenhuma de receber o seu corpo que necessita urgentemente de posições mais confortáveis e adequadas. A atendente tem mais de sessenta (nada contra) e não tem mais a ágil dinâmica que um dia pode ter sido a sua marca na incansável função (de também má formação?), não tem noção alguma de procedimentos médicos ou conhece sequer a rotina de uma urgência que exige prontidão. Entretanto, paulatinamente e sem demonstrar qualquer senso de prestabilidade e dedicação começa a indagar ao pai impaciente e inconformado,os dados da parturiente que vê o sangue a escorrer-lhe pelas entranhas, sentindo medo de morrer com o seu filho ou de ver seu filho morrer por si. “...de que interessa agora nome, morada ou numero – disse com pouco fôlego a angustiada gestante - eu só preciso de alguém prá me ajudar nesse momento...”

A quem interessa o mau atendimento nas instituições públicas e privadas, a quem interessaria a desarmonia, a falta de respeito aos direitos naturais do homem, a quem interessa os ideais e as ideias de guerra, de divisão e preconceitos?
E a quem realmente interessa a ideia de Paz , a promoção da alegria e do relacionamento sadio, humano e solidário, não pela imposição de seus falsos valores ou da hipocrisia mas sim pela sensibilidade de uma razão que é moral e inata ao próprio homem?!

18 de jun. de 2008

A ESCRAVIDÃO HUMANA NO SEC.XXl

A exploração do homem pelo homem é uma prática que, há muito, pensa-se ter sido abolida. Pensam alguns… atenção!
Ledo engano.
Na prática, esse cancro, está cada vez mais fazendo suas vítimas. Destruindo vidas, destruindo laços, famílias, destruindo direitos, subtraindo sonhos e tornando cada vez mais longínqua e penosa a esperança do cidadão.
A Escravidão Humana que é sustentada pelo poder económico dos países desenvolvidos e pelo abuso de poderes que o homem exerce sobre o outro á procura de satisfazer as suas inescrupulosas e insaciáveis intenções, existe sim. Ainda, nos dias de hoje.
Está presente nas ruas sob o olhar da discriminação étnica, religiosa e social.
Está nos locais públicos e privados onde o privilégio supera a justiça, o bom senso e a razão.
Está em tudo, inclusive na máquina administrativa que não gera Educação.
Atualmente em Portugal - país irmanado por laços eternos com o Brasil. - *“…existe uma população imigrante de 53 mil Brasileiros, sendo que apenas 14 mil possuem visto para trabalho” – segundo o Serviço de Imigração. Porém, o universo de trabalhadores ilegais no país não consta nos autos da instituição talvez por ser essa uma tarefa muito difícil.
Se calhar, o órgão não tem competência para isso.
Acredito, no entanto, que quando é feito um esboço do quadro da imigração no país não existam de fato omissões. Acredito sim que haja incongruências.
Entretanto, é inacreditável não haver aí um canal aberto e seguro para que pessoas, especialmente trabalhadores, sejam incentivadas á dar e buscar informações, pedir ajuda, prestar declarações e denunciar.
O Imigrante trabalhador exerce suas atividades de forma digna e ordeira.
Um ser humano digno de respeito e, como humanos é que merecem viver.
Há inúmeros relatos, casos que devem ser ouvidos e analisados. “Tráfico de influencias no processo de legalização; privilégios; extorsão; fiscalização relaxada às obras e postos de trabalho e ainda a sofrível condição do trabalhador.”
Explorados sim. Ajudados não!
O Governo não reconhece a legalidade do cidadão imigrante que não tem “Visto de Trabalho", porem, esse imigrante é induzido, logo que chega, a tirar o seu Cartão de contribuinte para estar registrado nas “finanças” - é o documento mais barato.
Isso quer dizer que a sua obrigação é contribuir. O imigrante pode não estar legal e nem será fácil conseguir isso, mas o que ganhar tem que prestar contas com o fisco que tem ciencia principalmente de sua morada e de sua existencia no País.
E ganha o Governo; ganha o Comércio; ganham os patrões e outros que aqui, agora, prefiro não citar para não correr o risco de deixar de fora mais alguns.
O Fenómeno da imigração, no entanto, favorece a muita gente menos ao imigrante que para atingir seus objetivos até ajuda a sustentar certas máfias que quase podemos dizer que são institucionais.
Alguns “patrões” exigem o esforço máximo do trabalhador imigrante sem lhes pagar a Segurança Social. Outros, além de não pagarem o que é devido ao trabalhador imigrante ainda os ameaça de entregar á imigração se forem cobrados.
Sem falar dos que ainda retém metade do salário para “amarrar” o trabalhador e “dão-lhes casa para morar”, numa intenção clara de cárcere privado.
Tem aqueles que dizem que o dono da obra ainda não pagou a fatura e com isso enrolam e abusam da paciência do trabalhador, atrasando e, ou, retendo seus salários.
Nos canteiros de obra ainda existem as figuras do capataz, dos tupamaros, o feitor, o capitão do mato, o dedo duro, o puxa-sacos, o “caguête”, etc., que passam o dia a atazanar, ofender, humilhar e oprimir o trabalhador, certos de que este é o melhor método para a produção e para se imporem sobre a fragilizada condição do imigrante.
Horrenda forma de vida. Sem direito sequer a informação.
A escravidão é uma tomada e se não for logo completamente desligada a humanidade se acaba meio a uma grande explosão.

* dados de 2004

3 de jun. de 2008

Amigos na infancia...

...é imprescindível lembrar de dois personagens importantes, astutos e perspicazes. Era o Chico e o Parafuso. Um Macaco e um Papagaio. Os dois seres mais interessantes do mundo animal que eu já convivi.
Parafuso, o papagaio, viveu comigo por mais tempo. Mas, Chico, o macaco, ganhou logo uma nova família.
O Chico…
O Chico era muito indisciplinado. Aproveitava para fazer as estripulias nas horas em que não via muito movimento em casa, no quintal ou no boteco, onde minha avó mantinha a sua clientela de doces, bolos, pães e outros artigos de mercearia a varejo. Sem falar das “pingas” que era cachaça da melhor qualidade que meu avô recebia da roça e que foi o motivo principal, pelo qual, se optou em doar o Chico.
O macaco, astuto como ele só, descia do alto de um tronco, onde ele tinha a sua casa e quando chegava embaixo, desamarrava-se do cinto que trazia junto á uma corrente, cujo cinto estava atado a sua barriga e, daí, sem muitas delongas, ia direto ao boteco que, por vezes, minha vó envolvida em outros afazeres, deixava sosinho, atendendo aos fregueses quando era chamada. E o pior, além de provar de cada garrafão de cachaça que tinha embaixo do balcão, o Chico as deixava abertas, espalhando o forte odor de álcool pelo chão á derramar cachaça por todo o assoalho de madeira. O macaco cachaceiro era incontrolável. Depois da cachaçada ficava irreverente e atrevido. Pulando o balcão, o Chico ganha a rua e só assim é que minha avó, efetivamente, toma conhecimento de que alguma coisa se passa, algo não está bem.
Alguém, na rua, chama minha avó pela grade de um grande portão de ferro – “O macaco tá solto, tá aqui na rua.”
Era o Chico fazendo das suas, diante das pessoas, tomando-lhes a frente, não as deixava passar na rua diante do boteco. A única rua de acesso ao centro e ao comércio do bairro vizinho.
Ao ver minha avó, diminui-lhe totalmente as tensões e seus gestos já se tornam mais afetivos, dignos da personalidade de um sonso.
- Chico… Chico…, outra vez seu moleque? - Diz minha avó pacientemente estendendo-lhe as duas mãos que ele alcança estendendo também as suas e se aconchegando ao colo dela. E, de repente as pessoas vêem se afastar um santinho que momentos antes fazia verdadeiras diabruras. Nos braços de minha avó, ele apoiava a cabeça sobre os ombros dela, com um olhar terno e sereno como se fosse um bom menino. O cheiro, no entanto, era insuportável no bafo que saía da boca do Chico, o macaco alcoólatra.
Ainda tenho, na palma de minha mão, a marca de uma dentada sua.

Parafuso…
Já Parafuso, o papagaio, era mais calmo, porém, ciumento e provocador.
Passava todo o dia no alto de um mastro que meu avô improvisara, onde ele tinha a visão privilegiada de toda a redondeza do bairro. Dessa forma ele mexia com as pessoas que por ali passavam e as que só ele é quem via. Assobiava e, as vezes, chamava: “louro”, com uma voz de puro deboche. Era o delírio da meninada que passava vendendo picolé porque, antes de se aproximarem, ouviam parafuso gritar: Olha aê o picooolé! Os moleques paravam para ouvirem o concorrente que, do alto do mastro, berrava vendendo picolé. É lógico que foi com os próprio guris que ele aprendeu essas palavras, no entanto, esse papagaio tagarelo também tinha aulas ao pé do ouvido. Achei interessante quando uma vez vi que o meu avô conversava, as vezes, bem ao pé do ouvido de Parafuso. O papagaio, pousado no dedo indicador da mão grossa e calejada de meu avô, ouvia á tudo silenciosamente. Excepcionalmente quando a aula era de música, pois ele logo começava a cantarolar, com mudanças de tonalidade na voz e o escambau. O bichinho era mesmo eloquente. E cantador!
Logo entendi o efeito daquela terapia quando o ouvi nitidamente cantar toda a oração do Pai Nosso, ensinada pelo meu avô.
Eu e Parafuso convivíamos, mas na verdade, ele nunca me aceitou ali.
Logo quando cheguei ele pareceu não ter ficado muito satisfeito. Eu me lembro de ouvir minha avó dizer que ele estava enciumado por eu ser um menino, uma criança.
Ciente disso passei a provoca-lo, encetando uma guerrinha particular entre mim e ele.
Pela manhã, a minha primeira tarefa antes de mais nada, era levar Parafuso com a sua gaiola para o quintal. Quanta raiva me fazia quando eu, ainda sonâmbulo, ia pegá-lo e me descuidava e ele aproveitava para me bicar com toda a força que tinha no bico.
Eu sabia que ele fazia aquilo porque não gostava de mim, porque á outros papagaios eu afagava a cabeça, davam-me o pé, mas parafuso não. A brincadeira que tinha comigo era só de querer tentar me bicar.
E eu não podia fazer nada contra ele porque meu avô podia se zangar...

31 de mai. de 2008

O último Plantão

... É. Eu sei que ainda falta um pouco, afinal dessa vez eu fiquei lá quase 15 dias…e não penso em voltar… tô me cuidando... Mas, vem cá, você não vai embora agora. Pegou-lhe a mão e entraram pelo portão que a avó acabara de abrir.
Beijou a vó e ele teve oportunidade de conhecer a velha que havia ido ao hospital mas nunca coincidira de ser no seu plantão.
- Olha, não falei que ela não demorava? Disse a vó radiante em saber que conhecia todos os horários da neta, que, as vezes, tratava por filha, a qual também, por vezes, a chamava de mãe.
- Geralmente ela sabe a hora que eu chego. - Disse Luzia pouco á vontade.
Ele fez um trejeito qualquer prá descontrair enquanto ela acompanhou a avó pela cozinha, retornando com dois pequenos bancos que colocou ao lado de uma janela com grade que ela disse ser o seu quarto.
Colocou os bancos afastados da parede, de forma que ficaram sentados um de frente para o outro. Notou que a sua tez ruborizada dava-lhe um ar mais saudável e além disso havia nela uma euforia que parecia prestes a não conter.
- Legal te ver assim.
- È. Acho que prá vocês deve ser mesmo assim né? É a compensação. Vocês são tão dedicados com a gente. Eu não tenho o que reclamar, fui bem atendida e você cuidou muito bem de mim. Obrigado...
Viu nos seus olhos o brilho que pensou já ter visto anteriormente. Mas o seu olhar era enigmático, terno, sereno, que parecia querer dizer uma coisa qualquer.
Havia naquele brilho algo muito estranho.
- Ora, somos enfermeiros, só isso. E o nosso pessoal ali é todo 10, ou não? – Inquiriu –
- Todos – apressou-se a falar – as meninas são maravilhosas, fiz amizades. Os médicos atenciosos, o pessoal do raio x. Lembra do seu Claudio?
- Claro… – Disse ele – o da radiografia.
- É. O pai da Vânia… dá um abraço neles quando os vir.
- Gente boa né?
- Pô, super legal… - disse ela.
De repente notou que ela parecia começar a ficar sem jeito, olhando-o fixamente nos olhos, o que ele não conseguia evitar, sem entender o que aqueles olhos pareciam querer dizer e ao mesmo tempo perguntar.
- Você sabe que agora tem que prestar muita atenção a sua dieta e controlar mais essa correria…
- Eu sei. E por falar nisso eu não peguei a dieta que o Dr. Kelson ia prescrever. Mas depois vejo isso. Agora quanto a correria – fez um gesto desolado – é fim de curso e eu não posso diminuir e nem parar.
- Tá bem. Então vamos fazer o seguinte, eu viajo aos fins-de-semana, nem todos, é claro, prá fazenda de uns parentes e amigos. Daí vou ver se consigo trazer alguns produtos lá da roça que vão te fazer melhorar logo esses índices de Bilirrubina que não estão nada bem.
- Você acha que…
- Não acho nada. Você viu o tempo que levamos para alcançar um nível que seria razoável e para que os médicos pudessem te mandar prá casa. Afinal, hospital não é um lugar que se queira passar duas semanas.
- Concordo, mas quando saí de lá já tava boa, quer dizer, o meu sangue já estava bom.
- Bom quanto, você lembra?
- Acho que 9… ou 10… - titubeava enquanto falava e levava o dedo da mão direita á boca como se fosse uma criança respondendo a uma lição que não havia estudado.
- E quando chegou, sabe qual era o resultado na primeira coleta que fizemos?
- Não. Respondeu levantando a sobrancelha direita esperando a resposta.
- Chegou com 7 e quando saiu estava quase com 11. Se bem que o Dr. viu que podia confiar em você, mas ele sabe que isso ainda não é um nº satisfatório. Mas eu acredito que, se você quiser e fizer uma forcinha, pode aproximar bem e atingir o nº desejável, ou seja, um patamar mais tranquilo.
Ela apoiou o cotovelo do braço direito na palma da mão esquerda e com a ponta dos dedos finos e longos tamborilou a face num gesto ingénuo e simples.
- Tá bem … – Disse se ajeitando no banquinho de madeira escurecida cujo assento era forrado de um tecido similar ao couro, de cor preta, com pés de pouca altura que mais parecia esses banquinhos usados em sala de colégio maternal - … mas a verdade é que eu tava te esperando aqui mas não era pra falar sobre isso. – Parecia confusa.
Passou as duas mãos pelo rosto e deixou que caíssem sobre suas pernas. Depois avançou as duas mãos em direção ás dele e as segurou olhando-o fixamente: - Eu preciso lhe dizer uma coisa e... não sei, não vejo jeito…
- É alguma coisa em que posso ajudar? Algum problema? – Ele demonstrava calma
- não, não é um problema… - vacilava – e pode sim me ajudar, isto é, se você quiser… se puder… sei lá, tô confusa.
- Não, não ta confusa. Pode contar comigo. Afinal já somos amigos, ou não?
Ela sorriu meio sem jeito e o encarou.
- Amigos!?- disse quase á sussurrar – é justo aí que quero chegar. Desde a 1ªvez que te vi eu sabia que não queria lhe ter como amigo…
- Como assim!? – Interrompeu mostrando surpresa sem saber o que iria falar.
- Eu me apaixonei por você. – Disse ela de forma direta, querendo demonstrar convicção.
Parecia sincera a sua declaração mas ele já não prestava atenção aquilo e, sim, estava com a cabeça numa verdadeira confusão. Nunca lhe ocorrera que um dia seria pego numa situação dessas, ainda mais a considerar a diferença de idades entre eles, muito embora, á muitos isso pouco importa quando o assunto é paixão. Ele não tinha dúvidas que ela estivesse realmente apaixonada, porque isso seria característica de uma personalidade arredia, carente, fragilizada até mesmo na sua intenção. Mas ela falou de amor e então ele concluiu que aí ela também fizera confusão.
Luzia tinha 20 anos á menos que ele. Morena, pele cor de jambo, tinha cabelos negros, compridos, que brilhavam como os seus olhos azuis. O corpo era ainda de uma adolescente, muito embora, a mente estava além de sua pouca idade.
Ela falava com os olhos e o arquear de sobrancelhas era mágico dando um toque enigmático nos lábios que sopravam docemente as suas palavras.
- … Sei que você está separado e sei bem como pensa e gosta de viver. O pouco que conversamos, já te conheço bastante. É como se sempre te conhecesse e agora preciso de você. Não importa o que pensa de mim agora. O que importa é que estou lhe dizendo o que nunca pensei que iria dizer á alguém. Eu te amo. E senti isso a 1ª vez que te vi.
Olhavam-se fixamente um aos olhos do outro e ele não se sentia capaz de esboçar qualquer reação. Estava contra a parede, numa situação única, com detalhe shakespeariano.
Não havia muito o que pensar na hora. Ou havia? Entretanto, observou cautelosamente, algumas situações que neste caso podem advir. Ponderou que, excepto um sentimento afetivo que nutria por ela, aquela declaração não podia, de certa forma, influenciar seu alter-ego, pois não gostaria de confundir momentos, sentimentos e as razões que regem toda uma vida.
Não foi muito fácil sair da casa dela naquele dia, sem dar-lhe o beijo que talvez ela esperasse e ele não se sentia seguro prá isso.
Viveram juntos durante 6 anos.
Ela formou-se em Artes Plásticas e dividiu com ele uma vida de universitária, trabalhadora, companheira e amante. Havia muito que aprender na vida á dois, não tinha qualquer experiência, o que ele tinha bastante, adquirido com um casamento de dez anos e mais três anos de uma segunda convivência.
E foi marido, pai, irmão, amigo e amante. Também foi “seu filho” - como ela mesmo dizia - numa vida anterior.
Mas, Luzia não foi um projeto e nunca foi uma utopia. Ela foi um sonho que ele viveu acordado. Luzia tinha vida, brilhava, mas gostava que ele fosse o seu guia.
E ele sabia que havia sido “um dia” na história de luzia. Sabia que ela não seria perene e, antes que o seu peito infrene não conseguisse se controlar, deixou Luzia, pois pensou que ela já não era mais sua e então resolveu abrir mão pra não sofrer mais tarde.
Ledo engano! ...
( Leia na íntegra este e outros contos do livro Passos de Imigrante - Contos & Crônicas)

24 de mai. de 2008

ABEL OU CAIM?


As manifestações do Individuo na Sociedade, pelas quais ele expressa as suas inquietações, inconformismos e revoltas, coloca-o sempre no rol dos "excluidos, marginalizados, e imcompreendidos"; numa estatística criada e manipulada por um "sistema humanitário" totalmente fragilisado por dogmas, conceitos, preconceitos e discriminações, que originariamente se desenvolvem nas incoerencias de sua 1ª comunidade que é justamente a familia.
Á princípio poderíamos salientar a questão das numerosas familias de poucos tempos atrás e outras mais atuais que ainda resistem ás tradições, umas por questões de condições próprias á issso, outras por ignorancia ou falta de apoio e informação.
O que é visível é que a dificuldade de se manter a unidade e harmonia, numa familia já há muito atomisada, torna-se cada vez mais um sacrifício. Se é dificil um convivio entre irmãos de uma grande familia, tanto é dificil tambem prever o futuro do filho único que dependerá tão e somente da origem familiar de seus pais.
A verdade é que não há o excludente por sí só. Ninguem quer ser excluido.
Afinal, o homem é um elemento que foi posto num meio, sem direito á escolher esse meio e nem mesmo escolher á si próprio, ou seja, escolher quem realmente gostaria de ser...
Portanto, ao que parece, o homem jamais conseguirá viver só. Entretanto, vejo que o que acontece hoje em dia é uma exclusão imposta e ao mesmo tempo involuntária. Isto porque as manifestações são resultados da influencia de agentes externos, exógenos, contrários á vontade do ser. É aquela exclusão onde o individuo sente-se inferiorizado por várias situações como, por exemplo, a sua condição perante os outros membros de sua comunidade. Passa então, a adotar métodos e comportamentos que delimitam um pseudo espaço que ora possa o satisfazer, procurando sempre, com isso, chamar a atenção para uma causa ou aprofundando, ainda mais, uma causa para chamar a atenção...

Filhos & Pais: Trokar idéias é bom d+

As vezes ouvimos os pais dizerem que não sabem o porque de alguns filhos serem tão diferentes uns dos outros.
Demonstram, por vezes, um inconformismo e uma intolerância pelo comportamento de alguns e comparam, de forma intransigente, criando a alegada diferença que vai refletir entre todos. Acreditam, piamente, tê-los criados da mesma maneira.
Obviamente que sabemos que nem todos somos criados da mesma maneira e que isso é só uma tentativa de desculpa, uma justificativa para não refletirem um pouco mais sobre alguns inevitáveis "erros humanos".
Sabemos, no entanto, que há em todo o elemento o fenômeno da mudança e da transformação. Somos mutantes e reagimos de acordo com o meio e as condições oferecidas pelo mesmo para sobrevivermos a isto. Pouco somos agora do que fomos a instantes atrás.
A mudança é uma constante no Ser que pecisa disso para evoluir e não estagnar.
Entretanto, as condições e interferências exógenas que são (ou não?) necessárias para a interação do homem, faz com que ele mesmo, como pai ou mãe, não seja menos ou mais parcial numa questão doméstica de grande relevância, inclusive, com algumas consequências futuras. Alguns Pais tecem fantasias para seus filhos sem lhes perguntar se gostam do modelo, se tá na moda ou é muito antiquado, se é moderno ou conteporâneo, se tá na mídia, na ideia, se é mesmo de fato ou é fantasia só para os eventos, os acontecimentos... Será que vai vestir sempre fantasias sem direito a ter o seu próprio modelito, a sua própria figura? O seu style talvez não significa, para ele, ser simplesmente alguem para os outros, mas sim um outro para alguem. Mesmo que seja para sí próprio.Alguns desses filhos, quando tiverem os seus filhos, dizem que irão criá-los de maneira diferente que foram criados. Daí surgem as dúvidas: Como?, de que forma? que outra maneira se muitos não tiveram sequer uma orientação no mínimo satisfatória para isso? E passam então a criar o seu próprio estilo sobre o seu filho, negando-lhe a mesma chance que lhe fora negada pelo seu pai. Imagine, entretanto, isto nas familias que até pouco tempo enchiam a casa de filhos sem os devidos cuidados e controle que isso merece. A falta de orientação á formação de uma familia trás graves prejuizos para a Sociedade e toda a Humanidade.
Muitos fazem filho por ignorancia, outros por qualquer motivo. E, talvez, quem pensa merecer um filho, não veja ou não tenha mesmo qualquer condição, física ou financeira, para o ter.
O filho obtém seu perfil assim como o pai e vai moldar, ou não, também o perfil de seu filho. Isso vai da personalidade adquirida meio a essa enigmática e paradoxal teia de contradições que envolve a natureza humana, numa guerra aberta, franca e muitas vezes desleal com a própria Razão. E para as fases, períodos e transições é preciso orientação, carinho, compreensão e partilha. Os Tabus, dogmas, conceitos e preconceitos não devem servir de marcas, logotipos ou tendências de uma próxima estação. Esses elementos e outros, são as sombras da razão.
Exercitar a mente é quase sempre uma conversa ao pé do ouvido com o próprio Eu. Entretanto, quando se tem um filho amigo, para o bate papo, a partilha disso fica até melhor.Quando meu filho crescer vou ter tempo prá ele. Vou buscá-lo na escola, vamos á praia, jogar bola... Eu juro que faria tudo isso porque hoje a vida é outra e eu o criaria de uma outra forma. Embora, hoje, o meu filho tem 27 anos e eu sou muito grato á Deus pelo que ele é e não sei se faria melhor do que o que ele mesmo fez e faz por sí...

DEPOIMENTO DE UM ORGULHOSO

Orgulhoso com muito orgulho!
Se assim o dizes…
As acusações de que eu seja Orgulhoso, Insociável e Individualista, são meras especulações de quem quer exigir um outro carater em mim.
Orgulhoso talvez porque não tenho nada á lhes oferecer, que alimente os seus falsos orgulhos, para que demonstrem os seus falsos e convenientes sentimentos por mim.
Orgulhoso porque quando perdi meu emprego de tantos anos, por questões arbitrárias de um Governo corrupto e fascista, não fui chorar ao pé de ninguém, pedir favor, esmolas ou qualquer auxílio. Muito embora eu tenha sacrificado muito de mim por isso.
Orgulhoso porque, mesmo com o desemprego e a falta de perspectivas no País não hesitei em recomeçar. Após uma tentativa de viver Imigrado longe dos filhos e família, retornei para os estudos em busca de uma nova profissão e tentar achar uma brecha no mercado de trabalho. Buscar uma alternativa, uma nova opção para voltar a sentir-me útil no meu País e criar a minha família.
Orgulhoso, mas não incompetente, pois conclui um curso de Técnico na área deSaúde, o qual se tornou uma de minhas paixões, pois foi aí que passei a compreender melhor não só a fragilidade do Homem diante de um orgulho como também os meus limites e a minha determinação;
Orgulhoso porque na minha nova profissão nunca concordei com o descaso e os maus tratos na Saúde e não tive medo sequer de discutir isso com meus superiores.
Fui discriminado e perseguido, mas sobrevivi, como sobrevivo até hoje sem precisar ser como os hipócritas, mercenários e oportunistas que procuram sempre levar vantagens sobre o outro;
Orgulhoso porque mesmo diante das desilusões políticas, filiado a um partido, ajudei a companheiros em alguns pleitos, nos quais foram bem sucedidos. Mas mesmo assim, isso não evitaria o meu périplo em busca de uma vida digna, com trabalho, num outro País.
Nada que fiz foi “por favor” e deixei bem claro isso quando Imigrei novamente em busca de trabalho e não por uma melhor condição de vida. E sempre defendendo com calor, paixão e respeito o nome do meu País e o Partido.
Orgulhoso sim, porque não gosto de interferir na vida de ninguém, porque sempre respeito as pessoas e tenho por elas grande esmero, protegendo ou relevando as suas convicções e comportamentos… E, talvez por isso me considerem um tanto exigente, culminando assim com a má interpretação de individualista.
Talvez o pensamento ignorante seja que, por qualquer motivo, restringindo-se ao meio, não se fica obrigado e nem exposto á hipocrisias e especulações pré conceituosas e inoportunas.
Orgulhoso por ter dado exemplos de “individualismo” quando na empresa de tantos anos nunca abri mão de participar em movimentos e passeatas em defesa dos direitos de minha categoria. Quando nas campanhas politicas de meu partido que eram mau vistas mas tinham programas e projetos que eu também defendia com muita convicção. E que esse partido tornava-se grande sob o clamor da maioria da população.
E eu estava ali. Á ajudar nas “Diretas Já”, nos “fora fulano” e “abaixo sicrano”, nas instaurações de CPIs, reuniões comunitarias, etc. e etc. Aí fui individualista sim, porque mesmo como um anónimo eu me sentia útil participando de todo esse processo enquanto a minha família era totalmente contra e, até eles, me discriminaram por isso.
Orgulhoso sim, é o que sou. O meu jeito de ver á mim e aos outros, realmente me deixa muito orgulhoso. Tenho dois filhos que provavelmente terão pela frente os mesmos meus desafios. Ele principalmente.
No entanto, o mais importante é ter em mente que hão de chegar á minha idade ou mais, sempre de cabeça erguida, á olhar as pessoas nos olhos, sem dívidas e nem dúvidas, sem inimigos pessoais, sem nenhum pré conceito aos valores materiais subjetivos, mas crentes e cônscios de que realmente poderão ter sempre orgulho de si.
Orgulhoso, porque assim posso até ser mau visto por alguns ignorantes á quem não devo nada, mas a minha vida é de um Imigrante em busca de sobrevivência para que o meu tempo aqui não seja perdido.
Orgulhoso sim porque como Imigrante me submeto, mas não calado, á exploração e á escravidão pelo trabalho, ás humilhações e discriminações de um sistema que é compactuado com uma política de Imigração tão frágil quanto ineficiente.
Entretanto, sei que podem escravizar o meu corpo mas jamais ocuparão qualquer parte de minha razão consciente e, assim, me permitem ser cada vez mais escravo de minha intenção.
Orgulhoso até porque nunca tive sorte, pois só tem “quem acredita nela”. Contudo, nunca abusei das oportunidades, abusaram sim aqueles que as me deram.
Orgulhoso porque tive uma criação de Avós e Pais que me possibilitaram, até hoje, uma conduta impoluta diante da minha comunidade, sociedade e do mundo.
Orgulhoso também porque, como se refere o ditado: “Coruja que não gaba o toco… pau nela!”.
Enfim, Orgulhoso sim. E feliz. Porque, sei que não tenho tudo o que as pessoas amam mas posso afirmar que Amo á tudo e á todos que tenho.

A 1ª fatia do bolo vai para…

Os convidados já se comprimiam no minusculo salão, emprestado ao aniversariante pelo seu patrão e senhorio. Alguns tinham verdadeira admiração pelo rapaz que já beirava os trinta. Outros tinham aversão pelo seu jeito moleque de ser.
Ele era brilhante no ato de fazer e cativar amizades e até de ter a simpatia daqueles menos chegados. E ele sabia bem fazer isso, juntar os prós e os contras para uma comemoração.
E “beberação” tambem.
- “ obrigado por ter vindo, legal que voce veio, amo voces, valeu meu amigo…” - assim ele era efusivamente abraçado e cumprimentava a todos. Vez por outra passava próximo a alguns mais intimos e brincava zombeteiramente: - Nunca vi tanto pobre junto por essas bandas… Ô povo feio… vamu gente, vamu comer que hoje é por minha conta…
E assim se fartava de rir.
Todos já conheciam o seu jeito e se divertiam. Alguns o aturavam.
Cantado os parabens, quando já estava na 2ª garrafa de wiski, que tomava dosadamente com coca cola, o aniversariante corta a1ª fatia do bolo e, em unissono, todos pedem discurso.
Ele, diante da insistencia e como se já esperasse por isso, coloca um risinho sarcástico no canto da boca, vira-se para os amigos presentes e diz:
Este primeiro pedaço, como reza a tradição, é para uma pessoa muito especial e esta pessoa é a Razão de toda minha vida. Todos são especiais prá mim, mas sem ela eu realmente não existiria, ela é quem me faz ter a idéia e a sensação de que eu sou eu mesmo. Sem ela eu não seria, nessa vida, ninguem. Ela está comigo em todos os meus momentos. Nas minhas decisões mais importantes, é ela que fala por mim.
Portanto, a ela tudo, - erguendo o pedaço de bolo diante de todos, continua- “como” prá voces tambem.
Por isso, esse primeiro pedaço de bolo vai para…
E, derepente, ele pareceu emocionado., os olhos brilharam e parecia até que ia chorar. Mas numa alegria espontanea e com o mesmo sorriso que não se desfez, completou quase num grito:
- … ninguem.
-...É para mim mesmo.

O outro lado da Ilha

Certa vez adormeci na ilha, mas naquela noite eu sabia que não precisaria sonhar.
Eu estava exausto depois de passar tanto tempo observando o mundo e ponderando os seus absurdos, numa análise rotineira de minha peregrinação.
Quando acordasse de meu sono no nada, estaria eu de volta a estrada onde sempre estive e de onde me desloquei para essa viagem estranha onde ninguém sonha porque não existe o real, a não ser numa ótica virgem, sem contrastes, sem matizes, sem performance ou condição.
Voltaria à vida resumida á um quarto ou sala, á um banco de praça, á um gesto contido, uma voz que não fala, ou uma mala que vai simplesmente sendo arrastada até a outra estação.
Sem destino e sem direção.
Subiria colinas e serras, reviraria a terra em busca de meu tesouro.
Ultrapassaria barreiras sem nunca ter medo de estar á beira de um colapso nervoso.
Voltaria tão parcial quanto sempre fui, pois, vindo do nada, já é muito o que eu posso ser. Entretanto, não é o bastante para que busque ser mais.
Se viemos do nada é preferível fazer-se valer mais nada do que não valer nada mais.
E o valor só se compara quando vemos o absurdo, quando a verdade em desuso é a causa de uma profunda inversão.
E o Universo não inverte nada, recicla, ratifica, remodela e continua em sua natural mutação, mesmo sendo refém, uma vitima de suas próprias criaturas, incontáveis e incontidas, projetos indefectíveis, objectos - de facto - de uma criação.
E todas as vidas eu queria se, um dia, eu as pudesse viver.
Vida de plantas, aves ou qualquer animal, uma vida tão igual a vida que me for dada, com chilrear de passarinho ou o coaxar de rã, um gesto de mudo ou o simples toque nas pontas dos dedos de um invisual.
Quero sonhar prá não dormir acordado e enquanto permanecer deitado contemplar, com prazer, a face da minha intenção.
E enquanto não brilha a aurora, a brisa que sopra lá fora envolve toda a natureza.
Meu corpo estremece num ligeiro calafrio e o assobio do vento fresquinho invade todo o meu ser, me chamando prá voltar ao nada, permanecer na ilha e não retornar a estrada, que fica do outro lado, onde o tempo não pára e está sempre á correr.
Quando a luz da Lua apagar mais um dia e a nostalgia não mais causar aflição, cessará toda forma de ansiedade e a certeza então vai desvendar a verdade que só pode ser revelada ao final, na plataforma da última estação.

M.lihm@

31 de mar. de 2008

Série Coletânea

Laços místicos

Nasci em casa e minha madrinha ajudou no parto. Tudo muito original e natural.
No mesmo quarto em que nasci, um dia, ainda no berço, uma bola na vidraça fez com que um estilhaço caísse, de ponta, em cima de mim, ferindo-me muito próximo ao esternocleidomastóideo, ou seja, no plexo torácico onde esse musculo é constituído por duas cabeças: a external e a clavicular. O caco de vidro fez sangrar o lado esquerdo de meu peito, á poucos centímetros do coração.
Foi só um susto. Talvez para me acostumar logo á não me assustar com tudo. Depois a vida se encarregaria de me ensinar a me assustar e a me surpreender, sem me acostumar com nada.
Nasci em Vila Velha, a cidade que eu amo. A primeira cidade á receber um imigrante Português que obtivera o título de donatário da Capitania do Espírito Santo.
Fazendo da Prainha o seu cais, Vasco Fernandes Coutinho, o português, deu inicio ás histórias de lutas na resistência dos índios; na petulância dos invasores; na resignação e na conquista pela fé - na catequese e á força - sob uma raça aborígene em vias de extinção. As marcas deixadas em cada pedra da “estrada velha” que leva á capela do Convento de Nossa Sra. da Penha, numa subida íngreme e penosa, podem não ser visíveis, mas estão registradas nas memórias que o tempo não vai apagar. Quem sobe as escadarias sente um misto de alegria e sofrimento, de prazer e de dor. Sente uma força que chama de fé, uma fé que emana amor. É a casa da Mãe, Nsa. Sra. da Penha, a Protetora do povo “Canela Verde”.

A locomotiva puxava os vagões de passageiros numa velocidade que não correspondia á ansiedade daqueles que tinham pressa de chegar. Estudantes que retornam à casa; turistas que iam de férias ás praias, tão desejadas do litoral de minha cidade, que se aproximavam para receber o frisson de alguns que ainda não as conheciam e alimentar aos sonhos de outros que se aventuravam.
- Ainda falta muito? – Perguntei.
- Não. Só mais um bocadinho e já chegamos. - Respondeu Cila, uma ex empregada da família que adotamos, há alguns anos, como irmã.
Eu tinha 11 anos, era o terceiro filho homem, dos quatro que havia e o nº seis do total de sete filhos existentes.
As paisagens verdes e as montanhas de Minas Gerais não me chamavam a atenção, os veios finos de água em que estavam se transformando o Rio Doce, antes navegável e, agora, duramente explorado pela febre dos garimpeiros que desordenadamente extinguiam uma forma de vida coletiva para satisfazerem as suas ambições e interesses privados. E a bateia todo dia separa uma parte que é arrancada do rio, suas preciosidades submersas. E as máquinas, boiando sob “plataformas”, assustam e afugentam a natureza viva de um ecossistema que servilmente se deixa acabar.
Café com pão, manteiga não... Café com pão manteiga não…
O trem corria velozmente sob os trilhos e eu ainda não queria chegar.
- Quer comer alguma coisa? Perguntou Cila, se ajeitando á poltrona ao ver que o homem, com um carrinho de lanche, se aproximava.
- Um refrigerante – Respondi, continuando a olhar fixo pela janela.
Ela fechou a revista Cruzeiro a olhar-me sisudamente.
- Porque tá assim, parece que não está gostando de ir prá casa de sua avó?
- Tô sim. - Respondi para não parecer chato.
O homem vestido de calça de nycron azul-marinho e camisa branca de mangas compridas e gravata azul - conforme a calça - e um quépi da mesma cor, que trazia á cabeça, esticou a mão me entregando um copo descartável onde ele havia despejado uma garrafa de refrigerante de 33cl. Depois de receber o dinheiro que a Cila lhe deu, saiu a fazer barulho com sua cesta sob rodinhas que trepidavam sobre o assoalho do vagão de 1ª classe.
As placas de sinalização passavam ora em grandes velocidades e ora tão devagar que dava para memorizar nºs que permanecem durante tanto tempo quanto queremos quando estamos mesmo a fim de ficarmos absortos e alheios ao que ocorre a nossa volta.
A estação Pedro Nolasco, já estava pequena àquela altura. O volume de passageiros provenientes de Minas Gerais era cada vez maior. E a nossa chegada poderia ser facilmente confundida com turismo, mas eu, mesmo sendo uma criança, sabia que não era bem assim...

1 de mar. de 2008

NAO FOI FEITA PRÁ MIM...

Sinto-me cada vez mais distante das pessoas, apesar de querer tê-las tão perto de mim.
Tenho vivido uma fase de minha vida em que estou muito isolado, solitário, um ermitão. Refém de um sentimento que não consigo compreender. Parece uma falta, um pequeno detalhe que antes já fora grande e hoje faz falta em mim. Não consigo uma comunicabilidade harmónica com o mundo á volta que parece revolto diante de tanto acontecimento absurdo. Não há interlocutores e a inversão de valores faz com que a vida seja um grande mercado onde encontramos de tudo.
Minha casa é um labirinto para o meu tédio que não consegue sair. Me perco entre corredores e quartos que não foram construídos só prá mim. Como também não é só prá mim que existe a bela, interessante e imponente estátua do Marquez de Pombal, na praça, em frente ao Banco do Brasil em Lisboa; o frio cortante sob as árvores da Av. da Liberdade que me obriga ao capuz do casaco que comprei no Fórum Montijo; as luzes de Lisboa, a praça dos Restauradores e o Rossio, as putas e drogados que se espalham pelas praças e logradouros. O metrô e suas belas estações subterrâneas com estruturas e tecnologias dignas de primeiro mundo. Estações que, em baixo da terra, mostram a vida intensa que existe acima de nossas cabeças. Painéis electrónicos e néon realçam a arte, a cultura e toda a forma organizada da vida quotidiana que explode na capital lisboeta. O telúrico ao som de um fado, a melodia ousada no show de Ivete Sangalo, no pavilhão, o grito de gol do Benfica, no Estádio da Luz.
Sei que nada disso foi feito só prá mim.
As estradas que me levam de Salvaterra ao Montijo, á Fátima ou Santarém. Á Lisboa, Alentejo e Algarve. Às praias, montanhas de Sintra, às paisagens mais lindas de Portugal.
Nada disso terá sido feito só prá mim.
Mas o que posso fazer se você não quis estar aqui?

10 de fev. de 2008

Dezoito me caçam...

( Encontro)


Encontro tua boca carnuda
me acho desnuda na sua cama
que me chama
e no corpo quente, o teu beijo
no peito, o desejo
que vem me consolar

Dentro de mim há gemidos
gritos de dor e paixão.
E o teu ombro amigo, verdadeiro
vem me apanhar por inteiro
escravo do meu coração.

Te vejo nos dias que passam
dezoito me caçam a procura de ti
dezoito soldados leais
fiéis escudeiros
servos de um amor derradeiro
Amor de solidão

E é na tua experiencia infinita
que me olha, que me fita
me deixando toda formosa
A flor mais bonita, a mais gostosa
de seus versos, suas prosas
dizendo que é da tua carne que eu gosto
e é no teu beijo que eu posso
e me sinto mulher

E eu só quero dizer-te
meu irmão e amigo
que nesses anos que vivo
assim, pertinho de tí,
descobri a minha alma,
minha vida,
o meu cerne e o meu sorrir.

29 de jan. de 2008

Um Anjo chamado Gaby

Interessante Gaby. A vida sempre irá me surpreender com as suas evidentes coincidencias, de um "pseudo" destino, que devo aprender a observar bem. Quando busquei, incessantemente, vê-la antes de partir, eu já sabia que seria uma tarefa difícil diante da falta de noticias que eu tinha dela e sem saber sequer por onde começar a procurar. Porém, a imagem que eu havia por tanto tempo gravado não me deixava um pouquinho sequer sossegado e, qualquer rosto que eu via, com qualquer pequeno detalhe que a pudesse lembrar, minha alma logo se agitava e a esperança em vê-la aumentava, por mais que eu temesse e evitasse que esse sonho viesse a se concretizar. Pois era mesmo assim. Eu desejava vê-la, mas não a queria encontrar. Busquei meio a pessoas, vitrines, nas ruas, igrejas e casas de amigos em comum. Mas... nada! Nem sequer eu conseguia saber onde e como ela poderia estar. Tudo penso e são conjecturas. São frutos de uma falta que causa amargura; um abismo, que existe e recrio, entre o esquecer e o esperar.
Mas, eis que surge o Anjo Gaby, que diante de mim sorri com toda a sua expressão. Um olhar sob sobrancelhas tão enigmáticas quanto os seus traços jovens, contidos e angelicais. Naquele momento nos tornamos amigos, com cumprimentos efusivos, como se á muito não conseguía-mos nos falar. O encontro um tanto bizarro, dentro do ônibus da linha 518, que passava pela praia, era como um milagre que meu coração esperava e festejava sem acreditar. Foi muito legal a revelação expontânea da nossa breve relação. E ainda maior é o mistério que a saudade e a intuição tenham levado tão a sério o meu desejo, ao ponto de projetar o meu sonho e o meu medo numa outra forma de percepção. Quando sentou-se a meu lado senti a sua energia que se confundia com a "outra". E era tudo tão igual: Um rosto fino e corpo delgado, seus olhos, a boca e o jeito no falar... Uma coincidência dos demônios! Ou seria dos deuses? Pensei em coincidências transcendentais. Anjos que sobrevoam a Terra ou os "fantasmas" que resistem em nós?
No céu, a quase 9 mil pés de altitude, sobrevôo os meus sonhos, confrontando com as minhas atitudes, sem saber ao certo quando voltar. Fui embora querendo ficar. Entretanto, dessa vez, nessa viagem que fiz ao Brasil, não a vi. Mas conheci Gaby, que não era "ela", mas que eu sabia que estava ali, na áurea daquele Anjo que, num gesto de compensação, tão raro quanto estranho, veio prá me consolar.