24 de mai. de 2008

A 1ª fatia do bolo vai para…

Os convidados já se comprimiam no minusculo salão, emprestado ao aniversariante pelo seu patrão e senhorio. Alguns tinham verdadeira admiração pelo rapaz que já beirava os trinta. Outros tinham aversão pelo seu jeito moleque de ser.
Ele era brilhante no ato de fazer e cativar amizades e até de ter a simpatia daqueles menos chegados. E ele sabia bem fazer isso, juntar os prós e os contras para uma comemoração.
E “beberação” tambem.
- “ obrigado por ter vindo, legal que voce veio, amo voces, valeu meu amigo…” - assim ele era efusivamente abraçado e cumprimentava a todos. Vez por outra passava próximo a alguns mais intimos e brincava zombeteiramente: - Nunca vi tanto pobre junto por essas bandas… Ô povo feio… vamu gente, vamu comer que hoje é por minha conta…
E assim se fartava de rir.
Todos já conheciam o seu jeito e se divertiam. Alguns o aturavam.
Cantado os parabens, quando já estava na 2ª garrafa de wiski, que tomava dosadamente com coca cola, o aniversariante corta a1ª fatia do bolo e, em unissono, todos pedem discurso.
Ele, diante da insistencia e como se já esperasse por isso, coloca um risinho sarcástico no canto da boca, vira-se para os amigos presentes e diz:
Este primeiro pedaço, como reza a tradição, é para uma pessoa muito especial e esta pessoa é a Razão de toda minha vida. Todos são especiais prá mim, mas sem ela eu realmente não existiria, ela é quem me faz ter a idéia e a sensação de que eu sou eu mesmo. Sem ela eu não seria, nessa vida, ninguem. Ela está comigo em todos os meus momentos. Nas minhas decisões mais importantes, é ela que fala por mim.
Portanto, a ela tudo, - erguendo o pedaço de bolo diante de todos, continua- “como” prá voces tambem.
Por isso, esse primeiro pedaço de bolo vai para…
E, derepente, ele pareceu emocionado., os olhos brilharam e parecia até que ia chorar. Mas numa alegria espontanea e com o mesmo sorriso que não se desfez, completou quase num grito:
- … ninguem.
-...É para mim mesmo.

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