31 de mai. de 2008

O último Plantão

... É. Eu sei que ainda falta um pouco, afinal dessa vez eu fiquei lá quase 15 dias…e não penso em voltar… tô me cuidando... Mas, vem cá, você não vai embora agora. Pegou-lhe a mão e entraram pelo portão que a avó acabara de abrir.
Beijou a vó e ele teve oportunidade de conhecer a velha que havia ido ao hospital mas nunca coincidira de ser no seu plantão.
- Olha, não falei que ela não demorava? Disse a vó radiante em saber que conhecia todos os horários da neta, que, as vezes, tratava por filha, a qual também, por vezes, a chamava de mãe.
- Geralmente ela sabe a hora que eu chego. - Disse Luzia pouco á vontade.
Ele fez um trejeito qualquer prá descontrair enquanto ela acompanhou a avó pela cozinha, retornando com dois pequenos bancos que colocou ao lado de uma janela com grade que ela disse ser o seu quarto.
Colocou os bancos afastados da parede, de forma que ficaram sentados um de frente para o outro. Notou que a sua tez ruborizada dava-lhe um ar mais saudável e além disso havia nela uma euforia que parecia prestes a não conter.
- Legal te ver assim.
- È. Acho que prá vocês deve ser mesmo assim né? É a compensação. Vocês são tão dedicados com a gente. Eu não tenho o que reclamar, fui bem atendida e você cuidou muito bem de mim. Obrigado...
Viu nos seus olhos o brilho que pensou já ter visto anteriormente. Mas o seu olhar era enigmático, terno, sereno, que parecia querer dizer uma coisa qualquer.
Havia naquele brilho algo muito estranho.
- Ora, somos enfermeiros, só isso. E o nosso pessoal ali é todo 10, ou não? – Inquiriu –
- Todos – apressou-se a falar – as meninas são maravilhosas, fiz amizades. Os médicos atenciosos, o pessoal do raio x. Lembra do seu Claudio?
- Claro… – Disse ele – o da radiografia.
- É. O pai da Vânia… dá um abraço neles quando os vir.
- Gente boa né?
- Pô, super legal… - disse ela.
De repente notou que ela parecia começar a ficar sem jeito, olhando-o fixamente nos olhos, o que ele não conseguia evitar, sem entender o que aqueles olhos pareciam querer dizer e ao mesmo tempo perguntar.
- Você sabe que agora tem que prestar muita atenção a sua dieta e controlar mais essa correria…
- Eu sei. E por falar nisso eu não peguei a dieta que o Dr. Kelson ia prescrever. Mas depois vejo isso. Agora quanto a correria – fez um gesto desolado – é fim de curso e eu não posso diminuir e nem parar.
- Tá bem. Então vamos fazer o seguinte, eu viajo aos fins-de-semana, nem todos, é claro, prá fazenda de uns parentes e amigos. Daí vou ver se consigo trazer alguns produtos lá da roça que vão te fazer melhorar logo esses índices de Bilirrubina que não estão nada bem.
- Você acha que…
- Não acho nada. Você viu o tempo que levamos para alcançar um nível que seria razoável e para que os médicos pudessem te mandar prá casa. Afinal, hospital não é um lugar que se queira passar duas semanas.
- Concordo, mas quando saí de lá já tava boa, quer dizer, o meu sangue já estava bom.
- Bom quanto, você lembra?
- Acho que 9… ou 10… - titubeava enquanto falava e levava o dedo da mão direita á boca como se fosse uma criança respondendo a uma lição que não havia estudado.
- E quando chegou, sabe qual era o resultado na primeira coleta que fizemos?
- Não. Respondeu levantando a sobrancelha direita esperando a resposta.
- Chegou com 7 e quando saiu estava quase com 11. Se bem que o Dr. viu que podia confiar em você, mas ele sabe que isso ainda não é um nº satisfatório. Mas eu acredito que, se você quiser e fizer uma forcinha, pode aproximar bem e atingir o nº desejável, ou seja, um patamar mais tranquilo.
Ela apoiou o cotovelo do braço direito na palma da mão esquerda e com a ponta dos dedos finos e longos tamborilou a face num gesto ingénuo e simples.
- Tá bem … – Disse se ajeitando no banquinho de madeira escurecida cujo assento era forrado de um tecido similar ao couro, de cor preta, com pés de pouca altura que mais parecia esses banquinhos usados em sala de colégio maternal - … mas a verdade é que eu tava te esperando aqui mas não era pra falar sobre isso. – Parecia confusa.
Passou as duas mãos pelo rosto e deixou que caíssem sobre suas pernas. Depois avançou as duas mãos em direção ás dele e as segurou olhando-o fixamente: - Eu preciso lhe dizer uma coisa e... não sei, não vejo jeito…
- É alguma coisa em que posso ajudar? Algum problema? – Ele demonstrava calma
- não, não é um problema… - vacilava – e pode sim me ajudar, isto é, se você quiser… se puder… sei lá, tô confusa.
- Não, não ta confusa. Pode contar comigo. Afinal já somos amigos, ou não?
Ela sorriu meio sem jeito e o encarou.
- Amigos!?- disse quase á sussurrar – é justo aí que quero chegar. Desde a 1ªvez que te vi eu sabia que não queria lhe ter como amigo…
- Como assim!? – Interrompeu mostrando surpresa sem saber o que iria falar.
- Eu me apaixonei por você. – Disse ela de forma direta, querendo demonstrar convicção.
Parecia sincera a sua declaração mas ele já não prestava atenção aquilo e, sim, estava com a cabeça numa verdadeira confusão. Nunca lhe ocorrera que um dia seria pego numa situação dessas, ainda mais a considerar a diferença de idades entre eles, muito embora, á muitos isso pouco importa quando o assunto é paixão. Ele não tinha dúvidas que ela estivesse realmente apaixonada, porque isso seria característica de uma personalidade arredia, carente, fragilizada até mesmo na sua intenção. Mas ela falou de amor e então ele concluiu que aí ela também fizera confusão.
Luzia tinha 20 anos á menos que ele. Morena, pele cor de jambo, tinha cabelos negros, compridos, que brilhavam como os seus olhos azuis. O corpo era ainda de uma adolescente, muito embora, a mente estava além de sua pouca idade.
Ela falava com os olhos e o arquear de sobrancelhas era mágico dando um toque enigmático nos lábios que sopravam docemente as suas palavras.
- … Sei que você está separado e sei bem como pensa e gosta de viver. O pouco que conversamos, já te conheço bastante. É como se sempre te conhecesse e agora preciso de você. Não importa o que pensa de mim agora. O que importa é que estou lhe dizendo o que nunca pensei que iria dizer á alguém. Eu te amo. E senti isso a 1ª vez que te vi.
Olhavam-se fixamente um aos olhos do outro e ele não se sentia capaz de esboçar qualquer reação. Estava contra a parede, numa situação única, com detalhe shakespeariano.
Não havia muito o que pensar na hora. Ou havia? Entretanto, observou cautelosamente, algumas situações que neste caso podem advir. Ponderou que, excepto um sentimento afetivo que nutria por ela, aquela declaração não podia, de certa forma, influenciar seu alter-ego, pois não gostaria de confundir momentos, sentimentos e as razões que regem toda uma vida.
Não foi muito fácil sair da casa dela naquele dia, sem dar-lhe o beijo que talvez ela esperasse e ele não se sentia seguro prá isso.
Viveram juntos durante 6 anos.
Ela formou-se em Artes Plásticas e dividiu com ele uma vida de universitária, trabalhadora, companheira e amante. Havia muito que aprender na vida á dois, não tinha qualquer experiência, o que ele tinha bastante, adquirido com um casamento de dez anos e mais três anos de uma segunda convivência.
E foi marido, pai, irmão, amigo e amante. Também foi “seu filho” - como ela mesmo dizia - numa vida anterior.
Mas, Luzia não foi um projeto e nunca foi uma utopia. Ela foi um sonho que ele viveu acordado. Luzia tinha vida, brilhava, mas gostava que ele fosse o seu guia.
E ele sabia que havia sido “um dia” na história de luzia. Sabia que ela não seria perene e, antes que o seu peito infrene não conseguisse se controlar, deixou Luzia, pois pensou que ela já não era mais sua e então resolveu abrir mão pra não sofrer mais tarde.
Ledo engano! ...
( Leia na íntegra este e outros contos do livro Passos de Imigrante - Contos & Crônicas)

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