Certa vez adormeci na ilha, mas naquela noite eu sabia que não precisaria sonhar.
Eu estava exausto depois de passar tanto tempo observando o mundo e ponderando os seus absurdos, numa análise rotineira de minha peregrinação.
Eu estava exausto depois de passar tanto tempo observando o mundo e ponderando os seus absurdos, numa análise rotineira de minha peregrinação.
Quando acordasse de meu sono no nada, estaria eu de volta a estrada onde sempre estive e de onde me desloquei para essa viagem estranha onde ninguém sonha porque não existe o real, a não ser numa ótica virgem, sem contrastes, sem matizes, sem performance ou condição.
Voltaria à vida resumida á um quarto ou sala, á um banco de praça, á um gesto contido, uma voz que não fala, ou uma mala que vai simplesmente sendo arrastada até a outra estação.
Sem destino e sem direção.
Subiria colinas e serras, reviraria a terra em busca de meu tesouro.
Subiria colinas e serras, reviraria a terra em busca de meu tesouro.
Ultrapassaria barreiras sem nunca ter medo de estar á beira de um colapso nervoso.
Voltaria tão parcial quanto sempre fui, pois, vindo do nada, já é muito o que eu posso ser. Entretanto, não é o bastante para que busque ser mais.
Se viemos do nada é preferível fazer-se valer mais nada do que não valer nada mais.
E o valor só se compara quando vemos o absurdo, quando a verdade em desuso é a causa de uma profunda inversão.
E o Universo não inverte nada, recicla, ratifica, remodela e continua em sua natural mutação, mesmo sendo refém, uma vitima de suas próprias criaturas, incontáveis e incontidas, projetos indefectíveis, objectos - de facto - de uma criação.
E todas as vidas eu queria se, um dia, eu as pudesse viver.
Vida de plantas, aves ou qualquer animal, uma vida tão igual a vida que me for dada, com chilrear de passarinho ou o coaxar de rã, um gesto de mudo ou o simples toque nas pontas dos dedos de um invisual.
Quero sonhar prá não dormir acordado e enquanto permanecer deitado contemplar, com prazer, a face da minha intenção.
E enquanto não brilha a aurora, a brisa que sopra lá fora envolve toda a natureza.
Meu corpo estremece num ligeiro calafrio e o assobio do vento fresquinho invade todo o meu ser, me chamando prá voltar ao nada, permanecer na ilha e não retornar a estrada, que fica do outro lado, onde o tempo não pára e está sempre á correr.
Quando a luz da Lua apagar mais um dia e a nostalgia não mais causar aflição, cessará toda forma de ansiedade e a certeza então vai desvendar a verdade que só pode ser revelada ao final, na plataforma da última estação.
M.lihm@
M.lihm@

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