...é imprescindível lembrar de dois personagens importantes, astutos e perspicazes. Era o Chico e o Parafuso. Um Macaco e um Papagaio. Os dois seres mais interessantes do mundo animal que eu já convivi.
Parafuso, o papagaio, viveu comigo por mais tempo. Mas, Chico, o macaco, ganhou logo uma nova família.
Parafuso, o papagaio, viveu comigo por mais tempo. Mas, Chico, o macaco, ganhou logo uma nova família.
O Chico…
O Chico era muito indisciplinado. Aproveitava para fazer as estripulias nas horas em que não via muito movimento em casa, no quintal ou no boteco, onde minha avó mantinha a sua clientela de doces, bolos, pães e outros artigos de mercearia a varejo. Sem falar das “pingas” que era cachaça da melhor qualidade que meu avô recebia da roça e que foi o motivo principal, pelo qual, se optou em doar o Chico.
O macaco, astuto como ele só, descia do alto de um tronco, onde ele tinha a sua casa e quando chegava embaixo, desamarrava-se do cinto que trazia junto á uma corrente, cujo cinto estava atado a sua barriga e, daí, sem muitas delongas, ia direto ao boteco que, por vezes, minha vó envolvida em outros afazeres, deixava sosinho, atendendo aos fregueses quando era chamada. E o pior, além de provar de cada garrafão de cachaça que tinha embaixo do balcão, o Chico as deixava abertas, espalhando o forte odor de álcool pelo chão á derramar cachaça por todo o assoalho de madeira. O macaco cachaceiro era incontrolável. Depois da cachaçada ficava irreverente e atrevido. Pulando o balcão, o Chico ganha a rua e só assim é que minha avó, efetivamente, toma conhecimento de que alguma coisa se passa, algo não está bem.
Alguém, na rua, chama minha avó pela grade de um grande portão de ferro – “O macaco tá solto, tá aqui na rua.”
Era o Chico fazendo das suas, diante das pessoas, tomando-lhes a frente, não as deixava passar na rua diante do boteco. A única rua de acesso ao centro e ao comércio do bairro vizinho.
Ao ver minha avó, diminui-lhe totalmente as tensões e seus gestos já se tornam mais afetivos, dignos da personalidade de um sonso.
- Chico… Chico…, outra vez seu moleque? - Diz minha avó pacientemente estendendo-lhe as duas mãos que ele alcança estendendo também as suas e se aconchegando ao colo dela. E, de repente as pessoas vêem se afastar um santinho que momentos antes fazia verdadeiras diabruras. Nos braços de minha avó, ele apoiava a cabeça sobre os ombros dela, com um olhar terno e sereno como se fosse um bom menino. O cheiro, no entanto, era insuportável no bafo que saía da boca do Chico, o macaco alcoólatra.
Ainda tenho, na palma de minha mão, a marca de uma dentada sua.
Parafuso…
Já Parafuso, o papagaio, era mais calmo, porém, ciumento e provocador.
Passava todo o dia no alto de um mastro que meu avô improvisara, onde ele tinha a visão privilegiada de toda a redondeza do bairro. Dessa forma ele mexia com as pessoas que por ali passavam e as que só ele é quem via. Assobiava e, as vezes, chamava: “louro”, com uma voz de puro deboche. Era o delírio da meninada que passava vendendo picolé porque, antes de se aproximarem, ouviam parafuso gritar: Olha aê o picooolé! Os moleques paravam para ouvirem o concorrente que, do alto do mastro, berrava vendendo picolé. É lógico que foi com os próprio guris que ele aprendeu essas palavras, no entanto, esse papagaio tagarelo também tinha aulas ao pé do ouvido. Achei interessante quando uma vez vi que o meu avô conversava, as vezes, bem ao pé do ouvido de Parafuso. O papagaio, pousado no dedo indicador da mão grossa e calejada de meu avô, ouvia á tudo silenciosamente. Excepcionalmente quando a aula era de música, pois ele logo começava a cantarolar, com mudanças de tonalidade na voz e o escambau. O bichinho era mesmo eloquente. E cantador!
O Chico era muito indisciplinado. Aproveitava para fazer as estripulias nas horas em que não via muito movimento em casa, no quintal ou no boteco, onde minha avó mantinha a sua clientela de doces, bolos, pães e outros artigos de mercearia a varejo. Sem falar das “pingas” que era cachaça da melhor qualidade que meu avô recebia da roça e que foi o motivo principal, pelo qual, se optou em doar o Chico.
O macaco, astuto como ele só, descia do alto de um tronco, onde ele tinha a sua casa e quando chegava embaixo, desamarrava-se do cinto que trazia junto á uma corrente, cujo cinto estava atado a sua barriga e, daí, sem muitas delongas, ia direto ao boteco que, por vezes, minha vó envolvida em outros afazeres, deixava sosinho, atendendo aos fregueses quando era chamada. E o pior, além de provar de cada garrafão de cachaça que tinha embaixo do balcão, o Chico as deixava abertas, espalhando o forte odor de álcool pelo chão á derramar cachaça por todo o assoalho de madeira. O macaco cachaceiro era incontrolável. Depois da cachaçada ficava irreverente e atrevido. Pulando o balcão, o Chico ganha a rua e só assim é que minha avó, efetivamente, toma conhecimento de que alguma coisa se passa, algo não está bem.
Alguém, na rua, chama minha avó pela grade de um grande portão de ferro – “O macaco tá solto, tá aqui na rua.”
Era o Chico fazendo das suas, diante das pessoas, tomando-lhes a frente, não as deixava passar na rua diante do boteco. A única rua de acesso ao centro e ao comércio do bairro vizinho.
Ao ver minha avó, diminui-lhe totalmente as tensões e seus gestos já se tornam mais afetivos, dignos da personalidade de um sonso.
- Chico… Chico…, outra vez seu moleque? - Diz minha avó pacientemente estendendo-lhe as duas mãos que ele alcança estendendo também as suas e se aconchegando ao colo dela. E, de repente as pessoas vêem se afastar um santinho que momentos antes fazia verdadeiras diabruras. Nos braços de minha avó, ele apoiava a cabeça sobre os ombros dela, com um olhar terno e sereno como se fosse um bom menino. O cheiro, no entanto, era insuportável no bafo que saía da boca do Chico, o macaco alcoólatra.
Ainda tenho, na palma de minha mão, a marca de uma dentada sua.
Parafuso…
Já Parafuso, o papagaio, era mais calmo, porém, ciumento e provocador.
Passava todo o dia no alto de um mastro que meu avô improvisara, onde ele tinha a visão privilegiada de toda a redondeza do bairro. Dessa forma ele mexia com as pessoas que por ali passavam e as que só ele é quem via. Assobiava e, as vezes, chamava: “louro”, com uma voz de puro deboche. Era o delírio da meninada que passava vendendo picolé porque, antes de se aproximarem, ouviam parafuso gritar: Olha aê o picooolé! Os moleques paravam para ouvirem o concorrente que, do alto do mastro, berrava vendendo picolé. É lógico que foi com os próprio guris que ele aprendeu essas palavras, no entanto, esse papagaio tagarelo também tinha aulas ao pé do ouvido. Achei interessante quando uma vez vi que o meu avô conversava, as vezes, bem ao pé do ouvido de Parafuso. O papagaio, pousado no dedo indicador da mão grossa e calejada de meu avô, ouvia á tudo silenciosamente. Excepcionalmente quando a aula era de música, pois ele logo começava a cantarolar, com mudanças de tonalidade na voz e o escambau. O bichinho era mesmo eloquente. E cantador!
Logo entendi o efeito daquela terapia quando o ouvi nitidamente cantar toda a oração do Pai Nosso, ensinada pelo meu avô.
Eu e Parafuso convivíamos, mas na verdade, ele nunca me aceitou ali.
Logo quando cheguei ele pareceu não ter ficado muito satisfeito. Eu me lembro de ouvir minha avó dizer que ele estava enciumado por eu ser um menino, uma criança.
Ciente disso passei a provoca-lo, encetando uma guerrinha particular entre mim e ele.
Pela manhã, a minha primeira tarefa antes de mais nada, era levar Parafuso com a sua gaiola para o quintal. Quanta raiva me fazia quando eu, ainda sonâmbulo, ia pegá-lo e me descuidava e ele aproveitava para me bicar com toda a força que tinha no bico.
Pela manhã, a minha primeira tarefa antes de mais nada, era levar Parafuso com a sua gaiola para o quintal. Quanta raiva me fazia quando eu, ainda sonâmbulo, ia pegá-lo e me descuidava e ele aproveitava para me bicar com toda a força que tinha no bico.
Eu sabia que ele fazia aquilo porque não gostava de mim, porque á outros papagaios eu afagava a cabeça, davam-me o pé, mas parafuso não. A brincadeira que tinha comigo era só de querer tentar me bicar.
E eu não podia fazer nada contra ele porque meu avô podia se zangar...

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