Laços místicos
Nasci em casa e minha madrinha ajudou no parto. Tudo muito original e natural.
No mesmo quarto em que nasci, um dia, ainda no berço, uma bola na vidraça fez com que um estilhaço caísse, de ponta, em cima de mim, ferindo-me muito próximo ao esternocleidomastóideo, ou seja, no plexo torácico onde esse musculo é constituído por duas cabeças: a external e a clavicular. O caco de vidro fez sangrar o lado esquerdo de meu peito, á poucos centímetros do coração.
Foi só um susto. Talvez para me acostumar logo á não me assustar com tudo. Depois a vida se encarregaria de me ensinar a me assustar e a me surpreender, sem me acostumar com nada.
Nasci em Vila Velha, a cidade que eu amo. A primeira cidade á receber um imigrante Português que obtivera o título de donatário da Capitania do Espírito Santo.
Fazendo da Prainha o seu cais, Vasco Fernandes Coutinho, o português, deu inicio ás histórias de lutas na resistência dos índios; na petulância dos invasores; na resignação e na conquista pela fé - na catequese e á força - sob uma raça aborígene em vias de extinção. As marcas deixadas em cada pedra da “estrada velha” que leva á capela do Convento de Nossa Sra. da Penha, numa subida íngreme e penosa, podem não ser visíveis, mas estão registradas nas memórias que o tempo não vai apagar. Quem sobe as escadarias sente um misto de alegria e sofrimento, de prazer e de dor. Sente uma força que chama de fé, uma fé que emana amor. É a casa da Mãe, Nsa. Sra. da Penha, a Protetora do povo “Canela Verde”.
A locomotiva puxava os vagões de passageiros numa velocidade que não correspondia á ansiedade daqueles que tinham pressa de chegar. Estudantes que retornam à casa; turistas que iam de férias ás praias, tão desejadas do litoral de minha cidade, que se aproximavam para receber o frisson de alguns que ainda não as conheciam e alimentar aos sonhos de outros que se aventuravam.
- Ainda falta muito? – Perguntei.
- Não. Só mais um bocadinho e já chegamos. - Respondeu Cila, uma ex empregada da família que adotamos, há alguns anos, como irmã.
Eu tinha 11 anos, era o terceiro filho homem, dos quatro que havia e o nº seis do total de sete filhos existentes.
As paisagens verdes e as montanhas de Minas Gerais não me chamavam a atenção, os veios finos de água em que estavam se transformando o Rio Doce, antes navegável e, agora, duramente explorado pela febre dos garimpeiros que desordenadamente extinguiam uma forma de vida coletiva para satisfazerem as suas ambições e interesses privados. E a bateia todo dia separa uma parte que é arrancada do rio, suas preciosidades submersas. E as máquinas, boiando sob “plataformas”, assustam e afugentam a natureza viva de um ecossistema que servilmente se deixa acabar.
Café com pão, manteiga não... Café com pão manteiga não…
O trem corria velozmente sob os trilhos e eu ainda não queria chegar.
- Quer comer alguma coisa? Perguntou Cila, se ajeitando á poltrona ao ver que o homem, com um carrinho de lanche, se aproximava.
- Um refrigerante – Respondi, continuando a olhar fixo pela janela.
Ela fechou a revista Cruzeiro a olhar-me sisudamente.
- Porque tá assim, parece que não está gostando de ir prá casa de sua avó?
- Tô sim. - Respondi para não parecer chato.
O homem vestido de calça de nycron azul-marinho e camisa branca de mangas compridas e gravata azul - conforme a calça - e um quépi da mesma cor, que trazia á cabeça, esticou a mão me entregando um copo descartável onde ele havia despejado uma garrafa de refrigerante de 33cl. Depois de receber o dinheiro que a Cila lhe deu, saiu a fazer barulho com sua cesta sob rodinhas que trepidavam sobre o assoalho do vagão de 1ª classe.
As placas de sinalização passavam ora em grandes velocidades e ora tão devagar que dava para memorizar nºs que permanecem durante tanto tempo quanto queremos quando estamos mesmo a fim de ficarmos absortos e alheios ao que ocorre a nossa volta.
A estação Pedro Nolasco, já estava pequena àquela altura. O volume de passageiros provenientes de Minas Gerais era cada vez maior. E a nossa chegada poderia ser facilmente confundida com turismo, mas eu, mesmo sendo uma criança, sabia que não era bem assim...
Nasci em casa e minha madrinha ajudou no parto. Tudo muito original e natural.
No mesmo quarto em que nasci, um dia, ainda no berço, uma bola na vidraça fez com que um estilhaço caísse, de ponta, em cima de mim, ferindo-me muito próximo ao esternocleidomastóideo, ou seja, no plexo torácico onde esse musculo é constituído por duas cabeças: a external e a clavicular. O caco de vidro fez sangrar o lado esquerdo de meu peito, á poucos centímetros do coração.
Foi só um susto. Talvez para me acostumar logo á não me assustar com tudo. Depois a vida se encarregaria de me ensinar a me assustar e a me surpreender, sem me acostumar com nada.
Nasci em Vila Velha, a cidade que eu amo. A primeira cidade á receber um imigrante Português que obtivera o título de donatário da Capitania do Espírito Santo.
Fazendo da Prainha o seu cais, Vasco Fernandes Coutinho, o português, deu inicio ás histórias de lutas na resistência dos índios; na petulância dos invasores; na resignação e na conquista pela fé - na catequese e á força - sob uma raça aborígene em vias de extinção. As marcas deixadas em cada pedra da “estrada velha” que leva á capela do Convento de Nossa Sra. da Penha, numa subida íngreme e penosa, podem não ser visíveis, mas estão registradas nas memórias que o tempo não vai apagar. Quem sobe as escadarias sente um misto de alegria e sofrimento, de prazer e de dor. Sente uma força que chama de fé, uma fé que emana amor. É a casa da Mãe, Nsa. Sra. da Penha, a Protetora do povo “Canela Verde”.
A locomotiva puxava os vagões de passageiros numa velocidade que não correspondia á ansiedade daqueles que tinham pressa de chegar. Estudantes que retornam à casa; turistas que iam de férias ás praias, tão desejadas do litoral de minha cidade, que se aproximavam para receber o frisson de alguns que ainda não as conheciam e alimentar aos sonhos de outros que se aventuravam.
- Ainda falta muito? – Perguntei.
- Não. Só mais um bocadinho e já chegamos. - Respondeu Cila, uma ex empregada da família que adotamos, há alguns anos, como irmã.
Eu tinha 11 anos, era o terceiro filho homem, dos quatro que havia e o nº seis do total de sete filhos existentes.
As paisagens verdes e as montanhas de Minas Gerais não me chamavam a atenção, os veios finos de água em que estavam se transformando o Rio Doce, antes navegável e, agora, duramente explorado pela febre dos garimpeiros que desordenadamente extinguiam uma forma de vida coletiva para satisfazerem as suas ambições e interesses privados. E a bateia todo dia separa uma parte que é arrancada do rio, suas preciosidades submersas. E as máquinas, boiando sob “plataformas”, assustam e afugentam a natureza viva de um ecossistema que servilmente se deixa acabar.
Café com pão, manteiga não... Café com pão manteiga não…
O trem corria velozmente sob os trilhos e eu ainda não queria chegar.
- Quer comer alguma coisa? Perguntou Cila, se ajeitando á poltrona ao ver que o homem, com um carrinho de lanche, se aproximava.
- Um refrigerante – Respondi, continuando a olhar fixo pela janela.
Ela fechou a revista Cruzeiro a olhar-me sisudamente.
- Porque tá assim, parece que não está gostando de ir prá casa de sua avó?
- Tô sim. - Respondi para não parecer chato.
O homem vestido de calça de nycron azul-marinho e camisa branca de mangas compridas e gravata azul - conforme a calça - e um quépi da mesma cor, que trazia á cabeça, esticou a mão me entregando um copo descartável onde ele havia despejado uma garrafa de refrigerante de 33cl. Depois de receber o dinheiro que a Cila lhe deu, saiu a fazer barulho com sua cesta sob rodinhas que trepidavam sobre o assoalho do vagão de 1ª classe.
As placas de sinalização passavam ora em grandes velocidades e ora tão devagar que dava para memorizar nºs que permanecem durante tanto tempo quanto queremos quando estamos mesmo a fim de ficarmos absortos e alheios ao que ocorre a nossa volta.
A estação Pedro Nolasco, já estava pequena àquela altura. O volume de passageiros provenientes de Minas Gerais era cada vez maior. E a nossa chegada poderia ser facilmente confundida com turismo, mas eu, mesmo sendo uma criança, sabia que não era bem assim...
