24 de mai. de 2008

ABEL OU CAIM?


As manifestações do Individuo na Sociedade, pelas quais ele expressa as suas inquietações, inconformismos e revoltas, coloca-o sempre no rol dos "excluidos, marginalizados, e imcompreendidos"; numa estatística criada e manipulada por um "sistema humanitário" totalmente fragilisado por dogmas, conceitos, preconceitos e discriminações, que originariamente se desenvolvem nas incoerencias de sua 1ª comunidade que é justamente a familia.
Á princípio poderíamos salientar a questão das numerosas familias de poucos tempos atrás e outras mais atuais que ainda resistem ás tradições, umas por questões de condições próprias á issso, outras por ignorancia ou falta de apoio e informação.
O que é visível é que a dificuldade de se manter a unidade e harmonia, numa familia já há muito atomisada, torna-se cada vez mais um sacrifício. Se é dificil um convivio entre irmãos de uma grande familia, tanto é dificil tambem prever o futuro do filho único que dependerá tão e somente da origem familiar de seus pais.
A verdade é que não há o excludente por sí só. Ninguem quer ser excluido.
Afinal, o homem é um elemento que foi posto num meio, sem direito á escolher esse meio e nem mesmo escolher á si próprio, ou seja, escolher quem realmente gostaria de ser...
Portanto, ao que parece, o homem jamais conseguirá viver só. Entretanto, vejo que o que acontece hoje em dia é uma exclusão imposta e ao mesmo tempo involuntária. Isto porque as manifestações são resultados da influencia de agentes externos, exógenos, contrários á vontade do ser. É aquela exclusão onde o individuo sente-se inferiorizado por várias situações como, por exemplo, a sua condição perante os outros membros de sua comunidade. Passa então, a adotar métodos e comportamentos que delimitam um pseudo espaço que ora possa o satisfazer, procurando sempre, com isso, chamar a atenção para uma causa ou aprofundando, ainda mais, uma causa para chamar a atenção...

Filhos & Pais: Trokar idéias é bom d+

As vezes ouvimos os pais dizerem que não sabem o porque de alguns filhos serem tão diferentes uns dos outros.
Demonstram, por vezes, um inconformismo e uma intolerância pelo comportamento de alguns e comparam, de forma intransigente, criando a alegada diferença que vai refletir entre todos. Acreditam, piamente, tê-los criados da mesma maneira.
Obviamente que sabemos que nem todos somos criados da mesma maneira e que isso é só uma tentativa de desculpa, uma justificativa para não refletirem um pouco mais sobre alguns inevitáveis "erros humanos".
Sabemos, no entanto, que há em todo o elemento o fenômeno da mudança e da transformação. Somos mutantes e reagimos de acordo com o meio e as condições oferecidas pelo mesmo para sobrevivermos a isto. Pouco somos agora do que fomos a instantes atrás.
A mudança é uma constante no Ser que pecisa disso para evoluir e não estagnar.
Entretanto, as condições e interferências exógenas que são (ou não?) necessárias para a interação do homem, faz com que ele mesmo, como pai ou mãe, não seja menos ou mais parcial numa questão doméstica de grande relevância, inclusive, com algumas consequências futuras. Alguns Pais tecem fantasias para seus filhos sem lhes perguntar se gostam do modelo, se tá na moda ou é muito antiquado, se é moderno ou conteporâneo, se tá na mídia, na ideia, se é mesmo de fato ou é fantasia só para os eventos, os acontecimentos... Será que vai vestir sempre fantasias sem direito a ter o seu próprio modelito, a sua própria figura? O seu style talvez não significa, para ele, ser simplesmente alguem para os outros, mas sim um outro para alguem. Mesmo que seja para sí próprio.Alguns desses filhos, quando tiverem os seus filhos, dizem que irão criá-los de maneira diferente que foram criados. Daí surgem as dúvidas: Como?, de que forma? que outra maneira se muitos não tiveram sequer uma orientação no mínimo satisfatória para isso? E passam então a criar o seu próprio estilo sobre o seu filho, negando-lhe a mesma chance que lhe fora negada pelo seu pai. Imagine, entretanto, isto nas familias que até pouco tempo enchiam a casa de filhos sem os devidos cuidados e controle que isso merece. A falta de orientação á formação de uma familia trás graves prejuizos para a Sociedade e toda a Humanidade.
Muitos fazem filho por ignorancia, outros por qualquer motivo. E, talvez, quem pensa merecer um filho, não veja ou não tenha mesmo qualquer condição, física ou financeira, para o ter.
O filho obtém seu perfil assim como o pai e vai moldar, ou não, também o perfil de seu filho. Isso vai da personalidade adquirida meio a essa enigmática e paradoxal teia de contradições que envolve a natureza humana, numa guerra aberta, franca e muitas vezes desleal com a própria Razão. E para as fases, períodos e transições é preciso orientação, carinho, compreensão e partilha. Os Tabus, dogmas, conceitos e preconceitos não devem servir de marcas, logotipos ou tendências de uma próxima estação. Esses elementos e outros, são as sombras da razão.
Exercitar a mente é quase sempre uma conversa ao pé do ouvido com o próprio Eu. Entretanto, quando se tem um filho amigo, para o bate papo, a partilha disso fica até melhor.Quando meu filho crescer vou ter tempo prá ele. Vou buscá-lo na escola, vamos á praia, jogar bola... Eu juro que faria tudo isso porque hoje a vida é outra e eu o criaria de uma outra forma. Embora, hoje, o meu filho tem 27 anos e eu sou muito grato á Deus pelo que ele é e não sei se faria melhor do que o que ele mesmo fez e faz por sí...

DEPOIMENTO DE UM ORGULHOSO

Orgulhoso com muito orgulho!
Se assim o dizes…
As acusações de que eu seja Orgulhoso, Insociável e Individualista, são meras especulações de quem quer exigir um outro carater em mim.
Orgulhoso talvez porque não tenho nada á lhes oferecer, que alimente os seus falsos orgulhos, para que demonstrem os seus falsos e convenientes sentimentos por mim.
Orgulhoso porque quando perdi meu emprego de tantos anos, por questões arbitrárias de um Governo corrupto e fascista, não fui chorar ao pé de ninguém, pedir favor, esmolas ou qualquer auxílio. Muito embora eu tenha sacrificado muito de mim por isso.
Orgulhoso porque, mesmo com o desemprego e a falta de perspectivas no País não hesitei em recomeçar. Após uma tentativa de viver Imigrado longe dos filhos e família, retornei para os estudos em busca de uma nova profissão e tentar achar uma brecha no mercado de trabalho. Buscar uma alternativa, uma nova opção para voltar a sentir-me útil no meu País e criar a minha família.
Orgulhoso, mas não incompetente, pois conclui um curso de Técnico na área deSaúde, o qual se tornou uma de minhas paixões, pois foi aí que passei a compreender melhor não só a fragilidade do Homem diante de um orgulho como também os meus limites e a minha determinação;
Orgulhoso porque na minha nova profissão nunca concordei com o descaso e os maus tratos na Saúde e não tive medo sequer de discutir isso com meus superiores.
Fui discriminado e perseguido, mas sobrevivi, como sobrevivo até hoje sem precisar ser como os hipócritas, mercenários e oportunistas que procuram sempre levar vantagens sobre o outro;
Orgulhoso porque mesmo diante das desilusões políticas, filiado a um partido, ajudei a companheiros em alguns pleitos, nos quais foram bem sucedidos. Mas mesmo assim, isso não evitaria o meu périplo em busca de uma vida digna, com trabalho, num outro País.
Nada que fiz foi “por favor” e deixei bem claro isso quando Imigrei novamente em busca de trabalho e não por uma melhor condição de vida. E sempre defendendo com calor, paixão e respeito o nome do meu País e o Partido.
Orgulhoso sim, porque não gosto de interferir na vida de ninguém, porque sempre respeito as pessoas e tenho por elas grande esmero, protegendo ou relevando as suas convicções e comportamentos… E, talvez por isso me considerem um tanto exigente, culminando assim com a má interpretação de individualista.
Talvez o pensamento ignorante seja que, por qualquer motivo, restringindo-se ao meio, não se fica obrigado e nem exposto á hipocrisias e especulações pré conceituosas e inoportunas.
Orgulhoso por ter dado exemplos de “individualismo” quando na empresa de tantos anos nunca abri mão de participar em movimentos e passeatas em defesa dos direitos de minha categoria. Quando nas campanhas politicas de meu partido que eram mau vistas mas tinham programas e projetos que eu também defendia com muita convicção. E que esse partido tornava-se grande sob o clamor da maioria da população.
E eu estava ali. Á ajudar nas “Diretas Já”, nos “fora fulano” e “abaixo sicrano”, nas instaurações de CPIs, reuniões comunitarias, etc. e etc. Aí fui individualista sim, porque mesmo como um anónimo eu me sentia útil participando de todo esse processo enquanto a minha família era totalmente contra e, até eles, me discriminaram por isso.
Orgulhoso sim, é o que sou. O meu jeito de ver á mim e aos outros, realmente me deixa muito orgulhoso. Tenho dois filhos que provavelmente terão pela frente os mesmos meus desafios. Ele principalmente.
No entanto, o mais importante é ter em mente que hão de chegar á minha idade ou mais, sempre de cabeça erguida, á olhar as pessoas nos olhos, sem dívidas e nem dúvidas, sem inimigos pessoais, sem nenhum pré conceito aos valores materiais subjetivos, mas crentes e cônscios de que realmente poderão ter sempre orgulho de si.
Orgulhoso, porque assim posso até ser mau visto por alguns ignorantes á quem não devo nada, mas a minha vida é de um Imigrante em busca de sobrevivência para que o meu tempo aqui não seja perdido.
Orgulhoso sim porque como Imigrante me submeto, mas não calado, á exploração e á escravidão pelo trabalho, ás humilhações e discriminações de um sistema que é compactuado com uma política de Imigração tão frágil quanto ineficiente.
Entretanto, sei que podem escravizar o meu corpo mas jamais ocuparão qualquer parte de minha razão consciente e, assim, me permitem ser cada vez mais escravo de minha intenção.
Orgulhoso até porque nunca tive sorte, pois só tem “quem acredita nela”. Contudo, nunca abusei das oportunidades, abusaram sim aqueles que as me deram.
Orgulhoso porque tive uma criação de Avós e Pais que me possibilitaram, até hoje, uma conduta impoluta diante da minha comunidade, sociedade e do mundo.
Orgulhoso também porque, como se refere o ditado: “Coruja que não gaba o toco… pau nela!”.
Enfim, Orgulhoso sim. E feliz. Porque, sei que não tenho tudo o que as pessoas amam mas posso afirmar que Amo á tudo e á todos que tenho.

A 1ª fatia do bolo vai para…

Os convidados já se comprimiam no minusculo salão, emprestado ao aniversariante pelo seu patrão e senhorio. Alguns tinham verdadeira admiração pelo rapaz que já beirava os trinta. Outros tinham aversão pelo seu jeito moleque de ser.
Ele era brilhante no ato de fazer e cativar amizades e até de ter a simpatia daqueles menos chegados. E ele sabia bem fazer isso, juntar os prós e os contras para uma comemoração.
E “beberação” tambem.
- “ obrigado por ter vindo, legal que voce veio, amo voces, valeu meu amigo…” - assim ele era efusivamente abraçado e cumprimentava a todos. Vez por outra passava próximo a alguns mais intimos e brincava zombeteiramente: - Nunca vi tanto pobre junto por essas bandas… Ô povo feio… vamu gente, vamu comer que hoje é por minha conta…
E assim se fartava de rir.
Todos já conheciam o seu jeito e se divertiam. Alguns o aturavam.
Cantado os parabens, quando já estava na 2ª garrafa de wiski, que tomava dosadamente com coca cola, o aniversariante corta a1ª fatia do bolo e, em unissono, todos pedem discurso.
Ele, diante da insistencia e como se já esperasse por isso, coloca um risinho sarcástico no canto da boca, vira-se para os amigos presentes e diz:
Este primeiro pedaço, como reza a tradição, é para uma pessoa muito especial e esta pessoa é a Razão de toda minha vida. Todos são especiais prá mim, mas sem ela eu realmente não existiria, ela é quem me faz ter a idéia e a sensação de que eu sou eu mesmo. Sem ela eu não seria, nessa vida, ninguem. Ela está comigo em todos os meus momentos. Nas minhas decisões mais importantes, é ela que fala por mim.
Portanto, a ela tudo, - erguendo o pedaço de bolo diante de todos, continua- “como” prá voces tambem.
Por isso, esse primeiro pedaço de bolo vai para…
E, derepente, ele pareceu emocionado., os olhos brilharam e parecia até que ia chorar. Mas numa alegria espontanea e com o mesmo sorriso que não se desfez, completou quase num grito:
- … ninguem.
-...É para mim mesmo.

O outro lado da Ilha

Certa vez adormeci na ilha, mas naquela noite eu sabia que não precisaria sonhar.
Eu estava exausto depois de passar tanto tempo observando o mundo e ponderando os seus absurdos, numa análise rotineira de minha peregrinação.
Quando acordasse de meu sono no nada, estaria eu de volta a estrada onde sempre estive e de onde me desloquei para essa viagem estranha onde ninguém sonha porque não existe o real, a não ser numa ótica virgem, sem contrastes, sem matizes, sem performance ou condição.
Voltaria à vida resumida á um quarto ou sala, á um banco de praça, á um gesto contido, uma voz que não fala, ou uma mala que vai simplesmente sendo arrastada até a outra estação.
Sem destino e sem direção.
Subiria colinas e serras, reviraria a terra em busca de meu tesouro.
Ultrapassaria barreiras sem nunca ter medo de estar á beira de um colapso nervoso.
Voltaria tão parcial quanto sempre fui, pois, vindo do nada, já é muito o que eu posso ser. Entretanto, não é o bastante para que busque ser mais.
Se viemos do nada é preferível fazer-se valer mais nada do que não valer nada mais.
E o valor só se compara quando vemos o absurdo, quando a verdade em desuso é a causa de uma profunda inversão.
E o Universo não inverte nada, recicla, ratifica, remodela e continua em sua natural mutação, mesmo sendo refém, uma vitima de suas próprias criaturas, incontáveis e incontidas, projetos indefectíveis, objectos - de facto - de uma criação.
E todas as vidas eu queria se, um dia, eu as pudesse viver.
Vida de plantas, aves ou qualquer animal, uma vida tão igual a vida que me for dada, com chilrear de passarinho ou o coaxar de rã, um gesto de mudo ou o simples toque nas pontas dos dedos de um invisual.
Quero sonhar prá não dormir acordado e enquanto permanecer deitado contemplar, com prazer, a face da minha intenção.
E enquanto não brilha a aurora, a brisa que sopra lá fora envolve toda a natureza.
Meu corpo estremece num ligeiro calafrio e o assobio do vento fresquinho invade todo o meu ser, me chamando prá voltar ao nada, permanecer na ilha e não retornar a estrada, que fica do outro lado, onde o tempo não pára e está sempre á correr.
Quando a luz da Lua apagar mais um dia e a nostalgia não mais causar aflição, cessará toda forma de ansiedade e a certeza então vai desvendar a verdade que só pode ser revelada ao final, na plataforma da última estação.

M.lihm@