13 de ago. de 2008

SÉRIE: Qualquer semelhança...

Parte l
Tudo que vejo é vulto...
- Tudo que vejo é vulto e o que sinto é o calor das mãos de minha mãe.
- A percepção se confunde com a energia que posso sentir. O toque, os gestos e o silencio do coração são mais altos que todos os outros acordes. Por hora eu sinto que sou objeto de uma paixão. Sou a lógica do amor determinada pelo ser humano. Sou agora um humano que tem cara e que tem coração.
- O colo me conforta com o calor do abraço que posso sentir. De repente parece que estou de volta ao ventre livre de onde eu nasci.
- Alguma coisa me faz reter músculos e nervos; ruídos altos de coisas que nem percebo e, ás vezes, um grande e demorado clarão.
- Logo vou começar a perceber tudo e decifrar as letras que eu nunca pensei escrever.
- ... Por hora eu posso dizer que agora sou parte de um meio, já sou algo que é parte do recheio; sou um grão que nasceu e terá o seu tempo enquanto, no tempo, o Amor de Deus permanecerá...!

O caminho é bastante longo, de voltas quase imprevisíveis, retas confusas que parecem não ter final. As barreiras não são tão intransponíveis, porem os níveis é que diferem na hora da escalada. Homens e mentes se confundem entre objetivos e ideais. Paralelamente corre o nada, para o nada, princípio da vida onde tudo começou. A razão está perdida meio a tantas emoções; sensações que despertam um falso momento, sentimentos incontidos numa imagem que não consegue refletir o que é real. E o homem se perde em labirintos que são alargados pela sua cruel ilusão. A saudade é uma moeda trocada pela esperança que não saiu da caixa de Pandora e o valor de outrora já não faz parte nas bolsas de cotação. É ínfimo e medíocre o esforço para se alcançar a verdade, pois a liberdade se tornou refém da hipocrisia e da falta de afetividade e compreensão.
Os ideais são fantasias, são máscaras carnavalescas, dissimuladas em ideologias grotescas que só servem para alienar as mentes fragilizadas, pobres mentes dotadas de débeis conceitos, de preconceitos e de discriminação.
E o corpo é a peça que designa a vontade; é a maldade e o excesso de um senso comum. A boca é usada para a pronuncia descabida, desordenada, projetando a palavra errada, erradicando a premissa da consagração. Gestos nem sempre inteligíveis, formas e textos imprevisíveis, sem deixar qualquer chance de interpretação.
E sofre, padece, vivendo admoestado pela “santa ignorância” da auto destruição. Fortes e pusilânimes corpos que são despejados, despojados do tudo que nunca os fartou. Trazem nas marcas todo o resultado de uma soma mal combinada, soluções enganadas, erradas em cálculos que não deixa certeza, que adormece na mesa, dentro de um tubo de ensaio qualquer. É a proveta o seu novo abrigo e o castigo renasce de um ato abolido num tempo que não vai voltar.
Pobres humanos desamparados, marginalizados pela própria razão. Não sabem por onde caminha o seu próprio destino, não andam sozinhos e vivem na escuridão achando que é longe a visão que carrega pois não querem aceitar que é cega a justiça que escorrega espremida entre os dedos, conservando a marca do medo no “M“ da palma da mão.
A Razão e a idéia constituem uma suposta panacéia a seres autônomos e ineficazes.
Não há sombras de dúvidas, as dúvidas é que são as sombras daquilo que não sabemos ou não podemos explicar.
... E o Amor de Deus permanecerá!
- No vento que sopra e na chuva que cai; no claro da luz que o Sol contemplou; na força da vida que brota e se vai e na madrugada perdida que ninguém despertou...
Por quanto ainda seremos humanos e, quantos anos ainda faltam pra si? Afinal o que seremos ou pra onde nós vamos, numa vida que passa e não tem pra onde ir?
A direção é incerta? Como foi traçada essa reta e qual a intenção que nos leva ao final?
E quem chega onde pensa que chega, chega cheio de idéias ou chega de pára quedas e cai sob sete palmos de chão?
Até onde somos nós mesmos e temos consciência disso e até onde eu posso pensar que sou aquilo que sempre quis? E como posso agir como eu mesmo se a corrupção ao meu corpo vem de berço, duma enfermaria em um canto qualquer, pois a mente que não se corrompe sofre no seu dia a dia o assédio da inquisição.
Os desafios são cada vez mais constantes. O que foi uma aventura antes passa a ser agora uma conduta de pura reflexão, de constatação dos enganos e da absolvição de nossa própria alma.
As palavras se repetem mas estão cheias de significados diferentes e, quando representadas, são outras as suas intenções.
Algumas pessoas se perdem meio a valores que criam e levados pela especulação de tantos outros valores de duvidosas e espúrias cotações.
As opiniões já não são assumidas ou livremente determinadas, misturam-se entre sugestões mal formuladas e acovardadas, dissimuladas pela hipocrisia e pela má intenção.
Entretanto...
Acordei com alegria ao saber que teria em meus braços o neto que era esperado e que foi cuidadosamente esperado e planejado por minha filha que fizera essa opção.
Na enfermaria de um Hospital público de ambiente sombrio e desorganizado encontrei a minúscula vida sendo embalada pela mãe que sorria com orgulho e satisfação.
Antes do Pai, o avô. Sorri e tomei-o em meus braços e num beijo terno nos lábios felicitei a minha radiante e ainda pusilânime filha que agora se tornara mamãe.
Meu genro a tudo observava e não conseguia conter a alegria nos olhos que brilhava mas, no momento ainda não se achava com coragem de pegar aquela figurinha frágil que eu descobria meio as mantas e roupinhas cuidadosamente arrumadas e levemente perfumadas. Ofereci-lhe o filho encorajando-o e orientando-o de acordo com a minha experiência de pai, enfermeiro(Téc.) e, por fim, avô “babão”.
A emoção do momento, no entanto, não conseguia sobrepor-se a razão e, assim, aluguei os ouvidos da filha e do genro com medidas imediatas de minha preocupação. Fiz diversas recomendações e chamei a atenção para procedimentos e cuidados que a partir do momento seriam determinantes para evitar complicações e proteger uma vida que se iniciara e que aos pouco se desenvolvia na palma de nossas mãos.
... Por hora, eu continuo a dizer que tudo que vejo é vulto e, que o Amor de Deus sempre permanecerá!
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Parte II

Um dia a mais

E mais um dia começa e junto a esse começo o desespero de quem não suporta mais esperar. O corpo já não quer a inquietação da mente e quisera ser demente para justificar um mal que já não mais suporta e, quisera sair pela porta, sumir para não voltar mais.
Não, não seria essa louca vontade insana que se renova de semana em semana e dia após dia sem dar um descanso sequer. Não seria essa condição louca, que sufoca e cala na boca um grito difícil de se conter.
E a palavra traduz mas não consegue expressar a ignorância que vive em concomitância com a própria falta de explicação. A verdade já não interessa porque a pressa, agora, é de resultados. Resultados que podem ser imprecisos, que não importa se venham com avisos ou qualquer outra forma de manifestação. O presságio há muito deixou de ser importante. O sentimento não é mais o de antes e o mau e o bom são matérias que geram uma vaga e invulgar discussão.
São assim os dias de um desempregado, de alguém que é útil mas não tem uma ocupação, a não ser no trabalho da mente que tenta não sucumbir ao tédio; que tenta fugir do amargo remédio que vicia, da droga que alicia, da ansiedade no dia que esquenta e esfria mas não muda a idéia e nem mesmo a razão.
Como um animal acuado, vive preso e desamparado por uma sociedade que não quer se envolver. É mais uma vitima de sua comunidade, das famílias e da sociedade, que a tudo assiste e insiste em discriminar. Julgam alguns que não há exclusão mas não dão atenção aos gestos tão mudos quanto estáticos e, com atitudes e pensamentos práticos, escondem em si a hipocrisia e disseminam a falsidade, com uma verdade que inexiste mas que atende ás suas terríveis necessidades, de legar para a eternidade a falta de compromisso moral e de uma justa razão.
A quem interessa, portanto, essa lamentável condição? Quem serão os algozes de um trabalhador incansável que por uma idade avançada e inevitável não consegue um lugar ou uma oportunidade para provar a sua capacidade, a sua utilidade e aptidão? Que inteligência impera nesse meio confuso cujo abuso está estampado na cara, na figura que se declara e se completa numa vil obstinação? Que distancia separa o discurso da ignorância e com que ganância esperam alcançar o topo dessa montanha infinita de proporções tão esquisitas quanto a vontade de não ser a imagem uma simples visagem que assusta mas não afugenta, que cria e não se contenta em ser uma idéia a mais, uma espera de paz ou, serenamente, uma simples imaginação.

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